A HISTÓRIA: Uma aventura épica de fantasia baseada na lenda intemporal de Artur, “O Cavaleiro Verde”, que conta a história de Sir Gawain (Dev Patel), sobrinho imprudente e obstinado do Rei Artur. Sir Gawain embarca numa ousada busca para enfrentar o Cavaleiro Verde epónimo, um gigantesco estranho de pele esmeralda, que coloca à prova os homens. Numa viagem, em que enfrentará fantasmas, gigantes, ladrões e maquinadores, Gawain vai acabar por definir o seu carácter e provar o seu valor aos olhos da sua família e do reino, ao enfrentar o derradeiro opositor.

"A Lenda do Cavaleiro Verde": nos cinemas a partir de 9 de setembro.


Crítica: Daniel Antero

Tanto místico como mundano, "A Lenda do Cavaleiro Verde" é uma interpretação livre do poema arturiano, onde dualidades como o paganismo e o Cristianismo, a honra e a tentação, a natureza e o modernismo, vão sendo revisitadas e analisadas ao longo dos anos em busca da moral e propósito efetivos de Sir Gawain e a sua contenda.

Na celebração do Ano Novo, Gawain, o sobrinho do Rei Artur, confronta um misterioso Cavaleiro Verde, aceitando o desafio de o golpear, com a condição de receber o mesmo golpe dali a um ano. O jovem decapita-o, mas para surpresa geral, o cavaleiro ergue-se, apanha a cabeça do chão e parte. Gaiwan enceta assim uma jornada épica em busca da Capela Verde e do seu destino com data marcada.

O realizador David Lowery, explorando um universo de feitiçaria, mortalidade e memória, estuda uma camada específica desta obra: dilatando e esperando, manipulando e baralhando o tempo que Gaiwan tem para acreditar em si próprio e se tornar um cavaleiro valente e honrado, adultera a verdade e faz-nos viver a lenda do futuro Sir Gaiwan.

Em "A Lenda do Cavaleiro Verde", a personagem de Dev Patel - que depois de David Copperfield nos traz mais uma grande interpretação de uma figura da literatura britânica - é também um herói verde, verdinho em muitas situações, que quer ser recordado como Grande. Ele sabe que o poderá ser facilmente se não aderir ao código de honra da Távola Redonda, onde parece imperar o cumprimento da palavra. Também é possível, claro está, se enfrentar de novo o Cavaleiro Verde e aceitar a sua desgraça.

A saga leva-o por um caminho de desventuras e provas, onde encontrará um necrófago (Barry Keogan) que o assalta; Winifred (Erin Kellyman), um espectro decepado que quer a sua cabeça de volta; um casal de lordes (Alicia Vikander e Joel Edgerton) com tentações; gigantes que avançam no nevoeiro; e ainda uma frondosa raposa.

Esta descrição de eventos pode levar os leitores a acreditarem que "A Lenda do Cavaleiro Verde" assenta nos cânones de filmes épicos como "Excalibur", de John Boorman (1981), onde um sentido operático e sumptuoso impera nas batalhas e nos cenários. Longe disso. O filme de Lowery deixa-se influenciar, mas aqui o que temos é uma atmosfera lânguida, sonâmbula, onde Gaiwan se deixa embrenhar na névoa que cobre a realidade e vai descobrindo a sua própria índole através da fantasia e da feitiçaria.

O filme é lento, a ameaça pende sobre o pescoço daquele ao ritmo do tempo que se vai esgotando e que ele não usa para se mentalizar do seu juízo final.

O realizador quis que a fluidez das estrofes e o cantarolar dos versos pautassem a toada deste filme, com as alegorias e simbolismos a rebentarem a dormência, desafiando-nos a interpretar que versão do tempo estamos a ver em determinado momento: a que Gaiwan constrói dentro de si? Aquela que ele viveu? Aquela que não viveu, mas que a lenda contou?

Cinicamente, Lowery fabrica esta viagem pelas eras, manipulando a câmara como elemento mecânico de tempo, rodando-a sobre a natureza, viajando entre a vida e a morte. Infelizmente, a repetição deste recurso, bem como a estrutura estanque entre as várias vinhetas de ação, acabam por nos retirar da hipnose, tornando-nos por vezes mais atentos aos artifícios do que a Gaiwan.

Mas se o espectador descobrir a entrada para o limbo que o realizador tanto quer construir, o final será recompensador. Quando Gawain chega à Capela Verde, como vaticinado, o que é que o Cavaleiro Verde lhe faz? Fá-lo esperar. E Lowery faz o mesmo connosco, mostrando-nos que este jovem se fez homem, mas nem por isso se tornou herói. Ao contrário do que conta a lenda.

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