Sátira de contornos hedonistas, "Arranha-Céus" é um olhar retro futurista sobre uma distopia primal que todos escondemos: todos anseiam subir mais um andar, todos olham para baixo com desdém de quem não sobe.

O novo filme de Ben Weathley, adaptação do livro homónimo de J.G. Ballard (1975), é a história de um colapso social num edifício ironicamente desenhado para unir a comunidade.

Os habitantes vivem uma hierarquia proporcional aos andares que habitam - quanto mais altos, mais ricos e poderosos. Quanto mais baixos, bem... levam com a merda e a escuridão dos superiores. O supermercado é no 15º, a piscina no 30º, na penthouse vive o Arquitecto Royal (Jeremy Irons), com frondosos jardins onde um cavalo se passeia.

Para o 25º chega um jovem médico "cool" e inteligente, Liang (Tom Hiddleston), que rapidamente se tornará “the best amenity of the building”, cobiçado por muitos, gozado por outros. É o seu olhar que observa os conflitos desta sociedade confinada, através da sua interação com Sienna Miller, Luke Evans e Elizabeth Moss: a solitária que usa o sexo como arma; o revolucionário que quer subir à força e fomenta a violência; a rejeitada que aguarda a sua vez. E também com Royal, espelhando-se um no outro, enquanto vêem o prédio por um caleidoscópio embaciado.

Os dias passam, as noites correm, a eletricidade começa a faltar, a água a escassear e o supermercado a ficar vazio. Royal insinua que o prédio se está a ajustar. A atmosfera vai ficando pesada e uma certa anestesia envolve os demais até à ruptura, que se irá expressar em festas e orgias. A decadência e a anarquia tomam lugar. Para uns, só haverá fim na brutalidade de um salto suicida desde o topo... os outros, para lá caminham.

"Slow motion", a câmara em rotação e o caos em montagem, "Arranha-Céus" por vezes parece um "videoclip", noutras uma instalação sem narrativa, mas com uma fluidez e um gozo macabro que nos diverte, como até certo ponto, diverte Weathley e Hiddleston.

Cenários sumptuosos ou espaços gélidos e sem alma; roupas coloridas ou a cor da pele a invadir a escuridão; eletrónica ou o barroco do compositor Clint Mansell; são estes os elementos que mantêm "Arranha-Céus" nos anos 70 a ecoar Thatcher e o espírito inglês da época. Ideia acertada por Weathley e a argumentista Amy Jump, para refletir 40 anos depois, nas torres infernais do nosso tempo.

Podemos ripostar, ou como no filme, aguardar pelo pedido de ajuda universal: uma versão deliciosamente negra de S.O.S dos Abba, tocada por Portishead.

Crítica: Daniel Antero

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