A HISTÓRIA: Inícios do século XIX. Após estudar Medicina durante vários anos em Nagasaki, o jovem Naburo Yasumoto regressa a Edo com a esperança de ser nomeado para a equipa médica da Corte. Apanhado de surpresa ao ser nomeado para uma clínica pública, Yasumoto desrespeita deliberadamente as regras do hospital. Aos poucos, porém, o jovem começa a respeitar o chefe da clínica, Barba Ruiva, um homem íntegro, que vê em cada doente "uma desgraça da vida”. Quando Otoyo, uma adolescente condenada à prostituição, adoece física e moralmente e procura os cuidados da clínica, o Barba Ruiva encarrega Yasumoto de curá-la.

"O Barba Ruiva": reposição nos cinemas a 15 de outubro.


Crítica: Hugo Gomes

Foi uma jornada de 16 filmes, mas todos os percursos chegam ao fim.

A colaboração entre o cineasta Akira Kurosawa e a sua requisitada estrela Toshirō Mifune terminou com “A Barba Ruiva”, a adaptação de uma série de contos de Shûgorô Yamamoto (com influências do russo Fyodor Dostoyevsky), que resultou numa das mais elaboradas (e serenas) composições do ator na parceria (recompensada com o prémio de interpretação no Festival de Veneza de 1965).

Esta história, cuja espinha dorsal narra a jornada espiritual de um recém-formado médico (Yûzô Kayama) com ambições de servir um Shogun (o senhor feudal) mas que é impedido por um velho e sábio médico rural que gosta de ser alcunhado de Barba Ruiva (Mifune) é, acima de tudo, um dos apogeus do senso humanitário de Kurosawa no Cinema.

De facto, ainda que este filme de 1966 não tenha a intensa epifania de um “Ikiru – Vencer” (1952), trata-se de uma obra dotada de uma sensibilidade quebradiça e que, em consequência, exibe uma teia de moralidades em prol de alicerces pessoais da humildade e solidariedade.

Os casos clínicos conduzem-nos a uma panóplia de subenredos que irão moldar o coração do jovem médico, numa cadência que parece saída dos  filmes de Kenji Mizoguchi (o cineasta japonês celebrado pelos  temas de dilemas e quadrantes éticos), reforçando “O Barba Ruiva” como um elaborado poema de gestos afortunados. Mas Kurosawa balança na corda da ingenuidade entre essa imperatividade e as boas ações.

Fora isso e como seria de esperar, existe um tremendo trabalho técnico, imensamente invejável e rico em detalhes que transformam cada sequência num elaborado teatro de sombras, luzes e tapeçarias como improváveis jardins. Um visual fantasmagoricamente refinado  e um dos mais aperfeiçoados da sua carreira.

Para além da fim relação entre Kurosawa e Mifune (uma rutura nunca totalmente esclarecido, mas que se especula ter surgido numa insatisfação do ator durante a rodagem), "O barba Ruiva" tornou-se, também, o último do realizador a preto-e-branco. Seguiram-se  as (des)venturas em Hollywood através de dois projetos que nunca se chegaram a concretizar sob a sua alçada – “Runaway Train” e “Tora! Tora! Tora!” -, saindo com um orgulho ferido e uma reputação infame que só recuperariam com a receção consensual reservada a "Kagemusha - A Sombra do Guerreiro", em 1980.

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