A HISTÓRIA: Em 1918, Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira e proprietária do Diário de Notícias, abandona o luxo social, cultural e familiar em que vive para fugir com um insignificante motorista, 26 anos mais novo. As consequências desta sua decisão serão obviamente dolorosas e moralmente devastadoras.

"Ordem Moral": nos cinemas a 10 de setembro.


Crítica: Hugo Gomes

O teor novelesco da decadência “moral” de Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira e dona do jornal Diário de Notícias, em 1918, no mais recente trabalho da dupla Mário Barroso e Carlos Saboga "Ordem Moral" é uma vénia comprometida aos escritos de Augustina Bessa-Luís, que imortalizou a história no romance “Doidos e Amantes”.

O romance já originou um filme raro de 1992 – “Solo de Violino” – assinado por Monique Rutler, mas é agora sob o cunho da produção de Paulo Branco a exibir um luxuoso efeito do cinema de época com consciência moderna  que desconstrói um dos prantos sagrados da nossa portugalidade: o patriarquismo.

Maria Adelaide Coelho da Cunha, mulher com status social insuflado cuja vontade é ditada por homens – muitos dos quais se ergueram hierarquicamente graças à sua sombra – é o corpo figurativo de uma silenciosa e contínua luta de (re)afirmação.

Uma afronta a um Portugal governado por forças inteiramente masculinas, eis a tão badalada personagem feminina que o nosso cinema ansiava, encarnada por um virtuosa Maria de Medeiros (bem haja o seu regresso em português!).

"Ordem Moral" apoia-se no desempenho da atriz, que por si e com a classe devida, resolve a predestinação de um filme que não adapta fielmente Bessa-Luís e muito menos se quer assumir como rígida cinebiografia, ainda que sofra, várias vezes, dos pecados de esquematização do género, nomeadamente no rol de personagens secundárias sem grande desenvolvimento nem contributo para o enredo.

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Ainda assim, entre “bonecos” históricos que vão surgindo como fuel do trágico percurso de Maria Adelaide, destacam-se atores que fervilham como nomes do futuro: João Pedro Mamede, já visto em “A Herdade”, que entra em confronto direto na partilha das atenções com Maria de Medeiros; a subtil e sedutora Júlia Palha, que após “John From” e “Coelho Mau”, confirma-se como uma das grandes apostas do cinema português; e a subvalorizada Rita Martins, que merecia, há muito, um holofote com sabor de “resgate”.

Apesar da sensação de que poderia ser mais do que uma produção “certinha” e arrumada, “Ordem Moral” funciona, com convição, como uma porta semiaberta que deixa ver diversas histórias ocultadas e respetivos devaneios sociais. E uma Maria de Medeiros, nunca é demais mencionar, como energia fulcral num filme, o que há muito não se via na sua veterana e representativa carreira.

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