Nomeado a três Óscares da Academia, esta nova adaptação do livro de James Baldwin remete-nos aos anos 70, mas trata-os como fosse a nossa contemporaneidade.

A décima quinta obra literária do escritor já serviu de inspiração para um trabalho do cineasta francês Robert Guédiguian. Surgido em 1998, “À La Place Du Coeur”, transladava o enredo de Baldwin para Marselha, colocando a fogo um amor interracial e, como é habitual na França, juntava uma constante batalha entre classes sociais.

Passados 20 anos, Barry Jenkins, “acabadinho” de sair da inesperada vitória nos Óscares com “Moonlight”, “mergulha de cabeça” num dos projetos de sonho – devolver à rua Beale a sua morada original – com isto preservando os seus gestos signatários.

Originalmente situado em Memphis, aqui colocando a ação em Harlem, Jenkins prova mais uma vez a capacidade de sintetizar as suas histórias com vista para causas sociais. Incentivado pelas palavras do escritor, aprofunda questões antigas com ecos num presente persistente. A violência policial, as discriminações raciais e toda uma sociedade prestes a ebulir nas suas respetivas insurreições (não esquecer um “dedinho” pelas fervuras religiosas), temas fortes que minam, no fundo, um romance … um simples romance.

É nesse amor tão ingénuo que Jenkins puxa o seu trunfo, a sensibilidade visual. Não nos apaixonamos necessariamente por este casal, mas sim, acompanhamos a sua paixão e tomamos esses ares românticos como nossos. Tudo graças a uma sintonia sonora e visual.

A avenida constantemente percorrida parece longínqua, interminável, por entre os cruzares de olhares, os sorrisos despertados e os gestos complementados. O jazz junta-se a passo, como simples música de rua, aliás, iluminando os quarteirões que surgem na nossa frente.

Diríamos que esta cumplicidade técnica patenteia um expressionismo moderno, ao jeito de imensos autores europeus permanentes ligados a uma poesia estética e sobretudo (o próprio Jenkins indica-o como sua grande inspiração) a Wong Kar-wai dos tempos de “Disponível Para Amar” (existem semelhanças nas deambulações de ambos os casais).

Em certa maneira, “Se Esta Rua Falasse” é um pequeno belo filme que nos contamina pela sua atmosfera e na sua densidade deposita-nos as suas alarmantes mensagens. Não nos coloca em cheque com o explícito ou o propagandístico que muitas obras tomam. Refere-nos, a nós como espectadores, seres sensíveis, por vezes inocentes na sua arte de amar.

E aqui não poderíamos deixar de falar nos atores, Kiki Layne, Stephan James (completamente ignorado nesta temporada de prémios) e Regina King (nomeada ao Óscar de Atriz Secundária), que subtilmente cedem a esta plasticidade como ninguém.

"Se Esta Rua Falasse": nos cinemas a 21 de fevereiro.

Crítica: Hugo Gomes

Trailer:

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