Tommy Wiseau é um vampiresco produtor de cabelo longo preto, argumentista com um inglês teutônico vindo algures da Europa do Leste, realizador que não sabe o que é um diretor de fotografia e ator principal... no papel errado. Sem talento em nenhum dos campos, sem ordem em nenhuma das suas acções, com seis milhões de dólares para criar o seu sonho, desenvolveu em 2003 “The Room”, para muitos o Pior Melhor Filme de Sempre.

Sucesso nas sessões da meia-noite, esgota salas de cinema em todo o mundo e torna o público um espetáculo dentro de outro: colheres de plástico voam para a tela, diálogos são repetidos em uníssono: “I did not hit her! I did not! Oh Hi Mark!”. Que calibre… (é pesquisar no YouTube).

Se ainda não viu este drama de 2003, junte uns quantos amigos, traga bebida e prepare-se para um festim de cenários ridículos, má interpretação, diálogos que se perdem e mudam de tópico sem aviso, cenas eróticas desconfortáveis e pausas intermináveis… pontuadas pela figura de culto Tommy Wiseau, uma gárgula perdida no universo, com demasiado coração e pouco discernimento.

Foi desta combinação de talento e de três mistérios sobre Wiseau - a sua origem, a sua idade e o seu dinheiro - que o ator James Franco se fascinou e partiu para a adaptação cinematográfica do livro “The Disaster Artist”, escrito por Greg Sestero (actor em "The Room") e o jornalista Tom Bissell. Trata-se da história dos bastidores da rodagem de “The Room” e da relação entre Wiseau e Sestero, o seu melhor amigo. Ambos lutam por um lugar ao sol em Los Angeles, mas a sua inaptidão para a arte da representação é tal que se vêem presos a uma única ideia: se querem ver o seu sonho realizado terão de fazer o seu próprio filme. O resto da história faz parte do culto do cinema, que coloca Wiseau ao lado de Ed Wood como o pior realizador de sempre.

Numa espécie de comédia "broomance" / drama biográfico, James Franco explora a típica história do "underdog" que procura a sua conquista, sem olhar a barreiras, com uma confiança inabalável e inspiradora. Na sua cegueira, Tommy Wiseau arrasta o amigo, envolvendo-o nas suas óbvias mentiras, que todos parecem ter receio de confrontar. Porque a sua falta de talento é também acompanhada de rancor, vingança e o poder do dinheiro falará mais alto durante as gravações.

James Franco é hilariante na representação dos maneirismos e na voz de Wiseau, enquanto que o irmão Dave Franco, no papel de Greg Sestero, funciona como o seu muro das lamentações, do charme e da fragilidade.

Perceção romantizada do processo criativo da obra de culto de Wiseau, “Um Desastre de Artista” mostra-nos o esforço de alguém que não compreendeu que não era bom o suficiente... e com isso, de forma honesta e respeitadora, a melhor virtude de James Franco e do seu filme é dar-nos de novo vontade de ver “The Room”. Prepare as colheres!

Crítica: Daniel Antero

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