
Felizmente, para os comuns mortais, à parte dessa imortalidade de que auferem as canções, as decisões das deidades da música não padecem da mesma irreversibilidade que a morte e, já em 2005, para gáudio dos mesmos, o duo composto por Brendan Perry e Lisa Gerrard voltou a reunir-se para uma digressão que contemplou a Europa e a América do Norte, mas que deixou de fora Portugal. O pretexto para uma primeira visita ao nosso país, surgiu, finalmente, em 2012, com o regresso aos discos, 16 anos depois do lançamento do aclamado “Spiritchaser”, até então o último registo de originais lançado pelos australianos. Juntamente com a ressurreição dos Dead Can Dance, “Anastasis”, chegou a boa-nova do concerto marcado para a Casa da Música, no Porto. A corrida para os bilhetes, esgotados em poucas horas, desde cedo deixou antever a devoção e o respeito com que Perry e Gerrard foram acolhidos, a noite passada, na Sala Suggia.
Amparados numa tecitura luminosa esverdeada, liderados pela voz imponente de Perry, foi com Children of the Sun que os músicos em palco inauguraram a travessia por paisagens sonoras férteis, interrompidas por um incontido aplauso de boas vindas, que se deu mal o jogo de iluminação se focou em Gerrard, ainda muda, em volta do dulcímero (instrumento de cordas, tradicionalmente tocado na Índia, China e Irão). Com Anabasis, a viagem prosseguiu pelo álbum mais recente, desta vez com a voz de Gerrard, desdobrada em cânticos de cariz ancestral, a puxar para si as rédeas e a impregnar-se pelo recinto, enquanto a sua figura celestial, num vestido de veludo azul coberto por um manto dourado, facilmente se demarcava das silhuetas negras dos seus colegas. Rakin marcou a primeira regressão temporal na discografia dos Dead Can Dance (“Toward the Within”, 1994), onde a melodia cantada por Perry ecoou no dulcímero manobrado por Gerrard, numa suavidade contrastante com os ritmos concisos da secção de percussão.
Àmedida que o tempo foi passando, o concerto construiu-se com base numa simbiose de sonoridades, onde se salientaram os cantos de influência gregoriana e hindu, e as instrumentalizações remetentes ao Médio Oriente. O cunho árabe foi, aliás, ressalvado na primeira intervenção falada de Perry, ao apresentar Lamma Bada, lamento escrito em árabe arcaico, há mais ou menos 200 anos atrás. A expedição pelo deserto fez-se sob uma luminosidade de tons quentes, com o vocalista a trocar o alaúde por uma guitarra de 12 cordas, e o teclado de Jules Maxwell, calcado curta e incisivamente, a confundir-se com a percussão.
Amnesia, num toque de contemporaneidade, com a vertente eletrónica menos disfarçada, apoiada num canto soturno executado por Perry, deu lugar a Sanvean, onde o domínio lírico de Gerrard, enovelado numa espécie de transe sintetizado, levou à primeira ovação em pé da noite. Um ritual que se repetiu por várias vezes, quer perante as vocalizações primitivas de Nierika, querna transposição para adensidade atmosférica de The Host Of Seraphim, ou mesmo All in Good Time, onde o vento mimetizado é reforçado pelas cortinas esvoaçantes no plateau.
Seguiram-se três encores, previstos já pelos alinhamentos das atuações anteriores. The Ubiquitous Mr. Strangelove trouxe até à plateia uma permissão subconsciente que manteve uma pequena parte do público em pé, a dançar, orientado pelo pulsar do baixo. Da autoria de Tim Buckley, Song to the Siren foi o tema emprestado para esta digressão, numa roupagem minimal suportada pela voz de Perry. A representar a fação mais celta e medieval remetida para segundo plano nos espetáculos de apresentação de “Anastasis”, a teclista Astrid Williamson juntou-se a Gerrard, num acrescento de textura vocal que marcou a interpretação de Return of the She-King.
Lisa Gerrard regressou ao palco pela última vez, para a despedida. A mesma voz que durante Rising of the Moon se desdobrou por variações mais negras e outras angelicais, imbuiu-se de uma imensa ternura nas últimas palavras dedicadas ao público: “You're Beautiful. I love you". Um galanteio que certamente terá sido retribuído por quem teve o privilégio de assistir à consumação de um dos mais aguardados concertos deste ano.
Alinhamento:
Children of the Sun
Anabasis
Rakim
Kiko
Lamma Bada
Agape
Amnesia
Sanvean
Nierika
Opium
The Host of Seraphim
Ime Prezakias
Now We Are Free
All Good in Time
The Ubiquitous Mr. Srangelove
Dream Flesh
Song to the Siren
Return of The She-King
Rising of the Moon
Texto: Ariana Ferreira
Fotografias: Ana Limão
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