"É como os Erasure liderados por Buffalo Bill" pode ser uma boa forma de apresentar o projeto de Robert Alfons nascido há quatro anos, em Toronto, ainda em colaboração com Maya Postepski (baterista que entretanto optou por se dedicar exclusivamente aos conterrâneos Austra). Esta tentativa de descrição de Trust é lançada por Jake Shears num texto que assinou para o site The Talkhouse, onde confessa que "TRST", álbum de estreia da então dupla, foi o seu preferido de 2012 (e uma sugestão certeira de Casey Spooner, dos Fischerspooner). O vocalista dos Scissor Sisters vai mais longe e confessa mesmo que Trust é tudo o que sempre quis numa banda. "Faz-me sentir sujo e com pena de mim próprio e, no entanto, pronto para enfrentar o mundo", explica.

Um híbrido atípico entre inocência, sordidez e euforia parece ser, de facto, o ponto de partida para as canções tanto do disco de estreia como do novo "Joyland", com a diferença de os temas mais recentes preferirem quase sempre o encantador ao macabro. Se há dois anos Alfons defendia a promiscuidade entre a synth pop, o electro, a EBM, a darkwave e tonalidades góticas, agora arrisca mais ao conciliar subgéneros malditos (ou vistos dessa forma durante décadas) como o trance, o eurodance, o Hi-NRG e até alguns laivos new age.

Videoclip de "Rescue, Mister":

A revista Electronic Beats chega a propor, sem se levar muito a sério, o rótulo ITM (Intelligent Trance Music) para o frenesim tão intoxicante como libertador da nova aventura sónica (e sensorial) de Alfons. O cantor, compositor, músico e produtor é mais gráfico, quase escatológico, na descrição e apresenta "Joyland" como "uma erupção de intestinos, enguias e alegria". Não serão os elementos que mais nos ocorrem ao percorrermos o alinhamento, mas a estranheza da associação está à altura de uma pop eletrónica que recusa a relativa contenção da estreia para mergulhar em refrãos épicos e batidas infecciosas. Que o faça através de uma voz tão bizarra como a de Alfons denuncia bem o gosto pelo risco do projeto. O canadiano vai de um registo grave à voz de hélio, com falsetes nasalados e andróginos pelo meio - muitas vezes na mesma canção.

A experimentação vocal já era um dos maiores elementos distintivos de "TRST" e "Joyland" reforça que o que interessa não é tanto o que Trust canta, mas como canta. Não por acaso, Alfons considera a voz o seu instrumento favorito e tendemos a concordar, sem desprimor nenhum para as camadas de sintetizadores (e a mais discreta presença do piano) que a acompanham. Se os Crystal Castles criassem um álbum na linha de "Year of Silence", canção que samplou e distorceu a voz de Jónsi Birgisson, dos Sigur Rós, o resultado talvez não andasse longe destas atmosferas.

Videoclip de "Dressed for Space" (single do álbum anterior):

Sem ser tão explosivo como os momentos mais agrestes dessa dupla conterrânea, com a qual é habitualmente comparado, Trust mostra-se capaz de fazer estragos sérios numa pista de dança. O arranque de "Joyland" até chega a enganar: "Slightly Floating" é fiel ao título e destaca-se como o momento mais sereno, quase flutuante, mas é daquelas canções que fazem mais sentido no contexto de um álbum, ao funcionar como introdução para o apelo raver de "Geryon". A aceleração rítmica, que Alfons diz ter ido buscar à energia dos seus concertos, volta a dar o tom a portentos como "Icabod" ou "Peer Pressure", que prometem ser avassaladores ao vivo. Em vez da revisão do trance e do eurodance, "Lost Souls/Eelings" opta por cenários acid house que não destoariam no último álbum dos Cut Copy (embora a voz se encarregue de desfazer qualquer equívoco).

Talvez menos imediata numa primeira audição, "Four Gut" respesca a carga darkwave de "TRST" e mostra-se mais claustrofóbica, menos excessiva, mas igualmente dançável. Já "Capitol" é synth pop luminosa e sonhadora sem perder a aura alienígena que contamina todo o alinhamento, confirmando as impressões deixadas pelo primeiro single, "Rescue, Mister", tão pegadiço como enigmático, e cimentadas no tema que fecha o disco, "Barely", aliança feliz entre introspeção e evasão. Esta despedida só não é o auge porque "Joyland" revela uma solidez mais evidente a cada audição, a tirar partido da força de alguma música de dança dos anos 1990 (não especialmente reputada) e de referências da pop eletrónica da década anterior, com heranças das experiências de uns Visage, Soft Cell, do lado mais sombrio dos Pet Shop Boys ou até mesmo dos Erasure... se fossem liderados por Buffalo Bill.

@Gonçalo Sá

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