Ontem à noite, no Lux, Sharon Van Etten mostrou que ainda há estreias felizes e imaculadas, num concerto que pode ser já apontado como um dos grandes momentos musicais de 2012 em terras lusas.

Em 2009, Sharon Van Etten era uma rapariga tímida, que vestia despreocupadamente e para quem as luzes da ribalta pareciam estar a anos-luz, apesar da qualidade musical desde logo revelada em “Because I was in love”. Durante três anos caminhou de mansinho até que, já este ano, editou o longa-duração “Tramp”, com a produção a cargo de Aaron Dessner (The National) e que contou com a participação de nomes como Jenn Wasner (Wye Oak), Zach Condon (Beirut) ou Julianna Barwick. Tornou-se mais confiante, retocou o seu visual e, musicalmente, refinou o seu som até dar de caras com o ponto-de-rebuçado, num dos discos de 2012 que merece o selo de“imperdível”.

“All I Can”, de “Tramp” foi o ponto de partida para uma noite íntima e memorável, celebrando uma música que tem a country no coração e o rock na circulação sanguínea. Os músicos que a acompanharam em palco foram incríveis, dois deles revelando-se multi-instrumentistas de altíssimo nível.

Em “Epic” é como ver o render do sol por uma lua que chega de saltos altos para uma festa no campo. Sharon atira um “We`re freaking out”, afirmando que vai tentar não ficar muito emocional com um acolhimento tão sentido.

Conversa também com alguns membros do público, um diálogo animado que se manteve até final. Alguém diz ter vindo de Itália para a ver tocar, tendo como recompensa a dedicatória ao tema “Leonard” – rebaptizado com “Leonardo” e com direito a um “grazzie” –, perfumado com as teclas de um Korg saltitante, uma eletricidade cristalina e uma guitarra acústica em ascensão como se só quisesse parar nas nuvens.

“Peace Signs”, conta-nos Sharon com algum espírito irónico, é uma daquelas canções clássicas sobre uma relação pouco saudável que obriga a um regresso à vida em câmara lenta. A um namoro inicial entre a bateria e a guitarra elétrica surge a voz trovejante de Sharon que, de olhos fechados, canta ao céu a sua libertação.

“Magic Chords” é um momento marcante, fazendo lembrar o ambiente que os The Antlers construíram no maravilhoso “Hospice”, uma marcha fúnebre embalada por um abraço jazz.

A banda sai e Sharon toca um tema que diz ter ficado de fora do último disco por soar demasiado a Fleetwood Mac”: “Gosto muito deles, mas não quero soar como eles”.

“Don`t do it” começa com o erguer de uma parede sónica, construída por uma voz gravada aquatro tempos para ir crescendo devagar até tomar as rédeas de um rock abrasivo.

Sharon brinca, fazendo um gesto mais habitual no mundo do hip-hop que tinha descortinado entre o público – braço levantado e a mão a oscilar para a frente e para trás -, dizendo que nunca tinha esperado ver alguém a fazer isso com a sua música; arranca logo depois para uma versão radical de “I Ask”, onde não tem medo de dividir o protagonismo com Heather Broderick que, em palco, faz um pouco de tudo: segundas vozes, teclas, guitarra e baixo. Segundo Sharon, é “a única pessoa com quem consigo cantar desde o liceu”.

Mais um momento humorístico, onde Sharon conta como a mãe mostrou o seu descontentamento por usar a palavra “balls” em “Ask”, sugerindo-lhe alternativas como “guts”. A coisa torna-se ainda mais íntima e há quem peça “One Day”. “Tínhamos um plano, mas vou ver o que posso fazer”, responde Sharon cumprindo a promessa mais tarde, no encore.

“Move to the city” é mais um grande momento: ao longe uma guitarra em modo western que soa exatamente como soariam os Radiohead se estes decidissem voltar atrás no tempo.

Em “I`m Wrong”, Sharon e C.ª enveredam por um rock incendiário, carregado de feedback, distorção, um som denso e cru que teria feito as delícias dos Sonic Youth se estes estivessem entre os presentes.

Já no encore, “One Day” - que Sharon disse ser a canção predileta da sua mãe - trouxe-nos uma country pop com sabor a pastilha elástica dos anos 90.

O (suposto) último tema é sujeito a votação: “querem uma música calma ou uma música rock?”. O resultado da sondagem popular resulta num atirar de nomes de temas para o ar, gerando nova questão: “Temos tempo para mais duas?” O público dá-lhe carta verde e Sharon, visivelmente bem-disposta, remata: “Afinal quem é que trabalha aqui”?

Ouve-se “In Line”, canção que Sharon disse ter escrito para o Neil Youg – digam-lhe se o virem por aí -, antes de o evento fechar com uma canção dedicada aos melhores amigos.

A banda despede-se mas Sharon fica no palco, assinando discos, vinis, bilhetes ou simples folhas brancas. Há um rapaz que diz que “Tramp” é um disco incrível, que bebeu cada uma das suas palavras como se de um néctar se tratasse; há outra rapariga que lhe confessa que há canções suas que lhe mudaram a vida, e agradece-lhe sentidamente por isso. Há já muito tempo que Sharon Van Etten merecia este brilho.

Texto: Pedro Miguel Silva

Fotografias: Joanica Cardoso

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