“Traction” foi apresentado na quarta-feira no Museu de Leiria pela Sociedade Artística Musical dos Pousos (SAMP) e, em direto pela internet - reforçando a internacionalização - também pelos parceiros principais: o Grande Teatro El Liceu, de Barcelona, e a Irish National Opera, da Irlanda.

Desenvolvido pela SAMP desde 2004 com estabelecimentos prisionais de Leiria, “Ópera na Prisão” assume um “novo desafio experimental” que congrega “a dimensão social, humana, criativa, comunitária, para a melhoria das vidas”, explicou o coordenador da componente portuguesa, Paulo Lameiro.

Para o diretor geral de Reinserção e Serviços Prisionais, presente na cerimónia, “Traction” é “uma oportunidade extraordinária” para “Ópera na Prisão” concretizar algo “ainda mais profundo e transformador”.

“É um fenómeno provocador, chocante”, considerou Rômulo Mateus.

Envolvendo “investigação de ponta em tecnologia, sociologia, antropologia, avaliação de impacto social e ética”, a SAMP associou-se à ópera de Dublin e ao teatro El Liceu, de Barcelona, chamando o instituto de pesquisa multimédia Vicomtech, de Bilbau, para a coordenação.

O consórcio inclui ainda o centro de investigação Centrum Wiskunde & Informatica, da Holanda, a Dublin City University e a empresa Virtual Reality Ireland, da Irlanda, a Universidade de Barcelona, de Espanha, e o investigador dedicado a arte comunitária François Matarasso.

“É um projeto muito grande, com muitas dimensões”, assumiu Paulo Lameiro. Se em Barcelona o público-alvo são as comunidades migrantes de 40 países que vivem à volta do teatro e em Dublin trabalhar-se-á com os camponeses, já em Portugal “são os reclusos [do Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens)], os familiares, os técnicos que trabalham com eles, o público que vai lá e os decisores”.

Recorrendo a tecnologia avançada, espera-se recriar um mundo novo dentro da prisão de Leiria.

“Já sabemos que não é possível fazer algumas coisas dentro da prisão. Mas agora, com a realidade virtual, podemos ter o [Teatro] São Carlos ou mesmo o Metropolitan Opera ou a Ópera de Paris dentro o estabelecimento. É a mesma coisa? Não, mas não é pior, é outra coisa”, exclamou.

Para Leiria, as universidades e empresas de tecnologia associadas vão trabalhar em ferramentas que “resolvam um problema que os ‘zooms’ agora têm: não é possível cantar ao mesmo tempo”, notou o coordenador.

Segundo Paulo Lameiro, o objetivo é ensaiar ópera no Pavilhão Mozart, em realidade virtual aumentada e em simultâneo com “o avô que está em Cabo Verde, a mãe que está na Amadora e o jovem no estabelecimento”.

“Queremos ter câmaras e ecrãs para os familiares que não podem ensaiar dentro do estabelecimento”, garantindo também a ligação entre “reclusos e ex-reclusos” e com familiares que estão mais longe, para que vejam os espetáculos de “Ópera na Prisão”.

Até 2023 haverá vários cruzamentos e trabalho colaborativo entre as equipas artísticas e os participantes de Portugal, Irlanda e Espanha. Em Leiria, vão estar envolvidos 40 reclusos, 80 familiares e cerca de 50 artistas e técnicos.

Procurando a transformação da ópera tradicional, com a superação de barreiras económicas, sociais e educacionais, o projeto envolve os compositores Nuno da Rocha, Francisco Fontes e Pedro Lima e o escritor Paulo Kellerman, que assinará um libreto original.

O diretor geral de Reinserção e Serviços Prisionais assumiu: “Somos abanados para trazer a mudança ao estabelecimento prisional. Como estamos perante um projeto tão eletrizante, só queremos que o tempo passe para estar aqui e assistir ao resultado”.

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