Prémios no Festival de Cannes, nomeações para os Óscares e Berlinale: o cinema brasileiro vive uma fase de esplendor, mas teme um retrocesso pela perda de apoio público sob o governo ultraconservador de Jair Bolsonaro.

Cineastas, produtores e profissionais do setor afirmam que a política cultural atual é ideológica e ameaça uma indústria que é uma das faces visíveis do país e mantém cerca de 300 mil empregos.

"Artisticamente é um momento de florescimento. Temos filmes comerciais brasileiros a funcionar muito bem nas bilheteiras e filmes brasileiros de caráter mais autoral a resultar também muito bem em festivais", afirmou à agência AFP Caetano Gotardo, co-realizador da longa-metragem "Todos os Mortos", co-produzido com a França e em competição na seleção oficial do próximo Festival de Berlim, no final de fevereiro.

"Mas vivemos um momento de bastantes dúvidas sobre a continuidade dessa produção", alerta Gotardo.

Todos os Mortos

O seu filme, que retrata a relação entre uma família branca e uma negra no Brasil no final do século XIX, após a abolição da escravidão, conseguiu escapar a tempo do período de turbulências que enfrentam muitas produções ainda em andamento.

O mesmo aconteceu com “A Vida Invisível de Euridice Gusmão”, de Karim Ainouz, vencedor do prémio Un Certain Regard no último festival de Cannes, e com “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho, vencedor do Prémio do Júri e que foi um sucesso de bilheteira nos cinemas brasileiros.

"Falta de ação"

Bacurau

Nenhuma dessas vitórias foi comemorada por Jair Bolsonaro, envolvido com os seus ministros numa “guerra cultural” contra o que consideram “arte da esquerda”.

As mudanças começaram com a extinção do Ministério da Cultura, convertido numa secretaria do Ministério do Turismo, e continuaram com o corte do patrocínio de empresas públicas para atividades culturais, medida que afetou vários festivais de cinema.

Bolsonaro afirmou que “o Estado tem maiores prioridades” do que financiar a cultura e ameaçou fechar a Agência Nacional de Cinema (Ancine) se não pudesse estabelecer um “filtro” de conteúdo ao destinar recursos públicos para incentivar o setor.

O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrado pela Ancine e alimentado principalmente por receitas da própria indústria audiovisual, sofrerá em 2020 um corte orçamental de mais de 40%.

O cinema brasileiro está “ameaçado pelas decisões erradas” e pela “falta de ação” do governo, que é “contra a cultura”, aponta Sara Silveira, produtora de “Todos os Mortos”.

Esta semana, o Ministério da Comunicação da Presidência acusou a realizadora Petra Costa de “difamar a imagem do país” com o seu documentário “Democracia em Vertigem”, nomeado para o Óscar da sua categoria, que conta sob uma perspetiva de esquerda o processo que levou ao poder o presidente de ultradireita.

Pouco tempo antes, Bolsonaro, cujo mandato termina em 2022 e pode ser reeleito, tinha dito que não perderia tempo a assistir a essa “porcaria”.

"Momento "perturbador"

“O momento cultural atual é talvez o mais perturbador que já se tenha vivido no processo cultural brasileiro”, declarou à AFP Luiz Carlos Barreto, um dos maiores produtores do cinema brasileiro, que viveu o auge do Cinema Novo na década de 1960 e negociou com a censura da ditadura militar (1964-1985) a autorização de produções qualificadas “subversivas”.

De acordo com Barreto, de 91 anos, está em curso uma “nova estratégia, um sistema de censura prévia”, no qual não se trata mais de “reprimir um produto [artístico], mas de colocar barreiras para que não sejam produzidos”.

Barreto pensa que o principal problema, agravado pelo governo atual, é que a cultura no Brasil é tratada como um “enfeite” e não como uma indústria valiosa.

“Precisamos lutar e combater para que a indústria da cultura, o que chamamos de ‘economia criativa’, que engloba muitos outros setores, seja vista de facto como um pilar económico”, afirmou Ilda Santiago, diretora do Festival de Cinema do Rio, cuja última edição esteve prestes a ser cancelada após a redução do patrocínio da empresa estatal Petrobras.

O futuro próximo é, para muitos, uma incógnita.

Após a renúncia do quarto secretário de Cultura – que parafraseou o ministro da propaganda de Hitler num discurso –, a esperança mais pragmática é de que a sua substituta, a atriz Regina Duarte, promova o diálogo com a classe artística e retome os programas que ajudam o setor a avançar.

Apesar de todas as dificuldades, “não vamos parar de produzir [filmes], não vamos parar de fazer o que fazemos”, conclui Ilda Santiago.

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