A realizadora portuguesa Cláudia Varejão prepara um filme com mulheres refugiadas em Portugal, a partir de uma história da mitologia grega, sobre o gesto de guardar a imagem de alguém que se ama.

"Kora" será uma curta-metragem documental com mulheres provenientes de territórios em conflito e que têm um denominador comum: "Trazem consigo uma fotografia na carteira de alguém que amam", como contou a realizadora à agência Lusa.

O filme tem produção pela Terratreme Filmes, Cláudia Varejão terminou agora a fase de escolha das mulheres que irão participar no projeto e a rodagem deve acontecer em breve, em dezembro ou janeiro.

Segundo Cláudia Varejão, "Kora" remete para uma história da mitologia grega, sobre uma mulher que desenha na parede o perfil da sombra do homem que ama, nas vésperas de este partir para a guerra.

"Diz-se que é aqui, neste mito, que nasce o início da pintura, da fotografia, do cinema. Todo ele nasce deste gesto de guardar alguém que nós amamos e que não queremos que desapareça das nossas vidas", explica Cláudia Varejão.

É essa ligação que a realizadora faz com a vida de quem procurou refúgio em Portugal.

"Num momento em que têm que deixar os seus países, por causa de um conflito armado, há pouca coisa que podemos trazer, mas uma delas são as fotografias. O filme conta a história destas mulheres através destes retratos", resumiu.

Cláudia Varejão, que em dezembro estreará a longa-metragem "Lobo e Cão", diz que este é um filme "sobre pessoas que têm pouca voz nas sociedades, que fazem parte das periferias destas redes sociais" em que a maioria das pessoas se move.

"Portugal tem acolhido muitos, muitos refugiados. As condições em que vive e o apoio que têm recebido é ainda muito parco, são contextos muito precários. Tenho encontrado muitas pessoas, muitas delas em transição, muitas delas a tentarem integrar-se numa realidade", considerou.

Sobre o processo de escolha das mulheres, nem todas se mostraram recetivas em participar no projeto.

"Um filme na vida de uma pessoa que acabou de atravessar o mar na pior das condições, ou assistiu ao pai a morrer à sua frente, ou os irmãos a serem levados, ou a irmã a ser violada. Para que interessa um filme? Nem todas têm disponibilidade, interesse e capacidade emocional de falar sobre um retrato de alguém que morreu e que trazem consigo. Não é um filme assim tão fácil e tão óbvio", admitiu.

Realizadora, argumentista e artista visual, Cláudia Varejão é autora de filmes como "Falta-me" (2005), "Luz da manhã" (2012), "Ama-san" (2016) ou "Lobo e cão" (2022).

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