A decisão causou celeuma e correu mundo: a 9 de junho, o filme "E Tudo o Vento Levou" foi retirado da plataforma de streaming HBO Max, num âmbito de uma revisão dos conteúdos disponibilizados nos canais de televisão quando decorrem grandes protestos contra o racismo e a brutalidade policial nos EUA e noutros países.

A longa-metragem de 1939 sobre a Guerra Civil americana, que venceu oito Óscares, incluindo o de Melhor Filme e o de Melhor Atriz Secundária (para Hattie McDaniel, que se tornou na primeira mulher negra a ser nomeada e a ganhar uma estatueta dourada), continua a ser um dos maiores sucessos de bilheteira de todos os tempos (quando são calculados os ajustes pela inflação), mas a sua representação de escravos conformados e heroicos proprietários de escravos é alvo de críticas.

A HBO Max acrescentou que será novamente disponibilizado numa data ainda a ser definida, juntamente com uma discussão do seu contexto histórico, mas Queen Latifah dispensa o regresso.

Numa entrevista à Associated Press, a atriz e cantora disse "Let 'Gone with the Wind' be gone with the wind", que pode ser traduzido como "Deixem 'E Tudo o Vento Levou' ser levado pelo vento".

Queen Latifah interpreta precisamente Hattie McDaniel na minissérie "Hollywood" da Netflix e recordou que a história da sua vitória dos Óscares pelo papel da criada escrava não é "dourada", destacando que teve de se sentar na cerimónia separada do restante elenco do filme devido às leis de segregação racial e ler um discurso escrito pelo estúdio que não era o que desejava dizer.

"E depois disso, tudo o que ela pôde fazer foi o mesmo tipos de papéis... portanto, eram simplesmente horríveis as oportunidades naquela altura e a forma como aqueles que estavam no poder naquela indústria nos relegavam e marginalizavam, não nos permitindo crescer crescer e prosperar. E muito disso ainda existe hoje", reforçou.

Quando retirou o filme da plataforma, um porta-voz da HBO Max emm comunicado enviado à AFP salientou que "'E Tudo o Vento Levou' é um produto do seu tempo e contém alguns dos preconceitos étnicos e raciais que, infelizmente, têm sido comuns na sociedade americana".

"Estas representações racistas estavam erradas na época e estão erradas hoje, e sentimos que manter este título disponível sem uma explicação e uma denúncia dessas representações seria irresponsável", completou.

O período histórico no qual se desenvolve a ação é um capítulo ainda controverso na sociedade norte-americana, já que os Estados dos Sul queriam proclamar a independência, negando-se a abolir a escravatura.

Várias manifestações aconteceram nos Estados Unidos após a morte, a 25 de maio, do afro-americano George Floyd durante uma ação policial, com pedidos de reforma das forças de segurança e da remoção de símbolos do legado racista, incluindo alguns monumentos.

O autor de "12 Anos Escravo", John Ridley, escreveu, num artigo publicado no jornal Los Angeles Times que "E Tudo o Vento Levou" deveria ser retirado e regressar com contextualização histórica porque "não fica apenas aquém da representação, mas ignora os horrores da escravidão e perpetua alguns dos estereótipos mais dolorosos das pessoas de cor".

A HBO Max garantie que o filme irá regressar sem cortes "porque fazer isso seria como dizer que estes preconceitos nunca existiram".

"Se vamos criar um futuro mais justo, equitativo e inclusivo, devemos primeiro reconhecer e entender a nossa história", afirmava o comunicado.

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