“’Masterclass’ é um pouco pomposo, é a forma errada de olhar para as coisas”, começa por explicar o autor, em entrevista à agência Lusa, e esclarece que “a arte, no geral, é uma coisa muito colaborativa. Pensar em alguém como mestre de algo é errado”.

Ainda assim, Welsh estará, dentro de uma semana, em Espinho, para falar sobre a adaptação de obras para cinema, algo que lhe é familiar, assim como da sua experiência com a indústria.

“Vou tentar concentrar-me em adaptações. Se estou a escrever um argumento original, ou a adaptar um dos meus livros, ou outra pessoa está a fazê-lo, as relações são todas muito diferentes”, adianta.

Depois do sucesso de “Trainspotting”, quer do livro (1993), quer do filme (1996), foram também adaptadas ao grande ecrã as obras do escocês “The Acid House”, “Porno” e “Filth”.

O escritor gosta de se envolver no processo, mas também de quando outros tomam as rédeas. “É fabuloso”, diz, confessando que prefere “até que sejam outras pessoas, porque trazem olhos frescos”, já que qualquer autor se torna “míope quanto ao seu próprio material”.

Abdicar do controlo tem outras vantagens: “Se escreveste um livro e outra pessoa adapta, se o filme corre bem toda a gente diz ‘wow, é um ótimo material de origem’. Se corre mal, pode dizer-se que ‘lixaram’ o meu livro”, brinca.

“Os realizadores sabem disto e tentam envolver os escritores. É por isso que muitos escritores têm aqueles títulos de produtores executivos, e recebem mais dinheiro, e isso é para os fazer calar. Porque dá jeito ter o escritor encostado”, prossegue entre risos.

As suas histórias descrevem submundos marcados pela criminalidade, pelas drogas, pela violência.

Foi numa adaptação do romance “Marabou Stork Nightmares” ao teatro, quando é interpretada uma cena de violação, que Welsh sentiu o peso da violência do que tinha escrito. “Os atores estão ali no palco. É muita exposição”, justifica.

“Lembro-me do ‘The Sex Lives of Siamese Twins’, em que há uma cena lésbica de amor de cinco páginas. Quando a escrevi num argumento, pensei ‘meu Deus’, alguém terá de fazer isso em palco’”.

Para contornar a questão, escreveu “fazem amor, e o encenador e os atores podem trabalhar isso”.

“É uma coisa diferente, temos de ter em conta que as pessoas têm de encontrar a sua forma de fazer coisas, de descobrir uma forma de contornar certas questões, como cenas sexuais ou violentas. Num livro não há lá nada, então é preciso criar toda a atmosfera e a evocação”.

Questionado sobre se, depois daquele episódio, sentiu que havia um nível de violência a partir do qual era ir longe demais, Irvine Welsh assevera que “tudo é demais se não estiver enraizado na personagem e num tema”.

“Desde que a personagem esteja a comportar-se de forma consistente, pode fazer-se tudo na matriz emocional que se constrói para essa personagem. Tudo parece errado quando fazem algo completamente diferente, que nunca fariam. Sinto que os estranhos são os contabilistas que também são um James Bond. Acho isso muito ridículo e não gosto de livros, filmes, que fazem esse tipo de coisas. Prefiro que seja muito mais enraizado em algum tipo de realidade social”, concretiza.

Depois do cinema e do teatro, o escritor está agora a trabalhar na adaptação do livro “Crime” para televisão.

A série, de seis episódios, será produzida e distribuída pela britânica ITV, mas também estará disponível em ‘streaming’, tendo já sido vendida a vários países europeus, avança o autor.

Além da série, que sairá em novembro, Welsh está a escrever uma sequela desse mesmo livro, que deve ser publicada em setembro do próximo ano.

Irvine Welsh nasceu em 1958, em Leith, uma zona portuária a leste da capital escocesa, Edimburgo.

O seu primeiro romance, “Trainspotting”, de 1993, foi um enorme sucesso, tendo sido adaptado ao cinema em 1996, por Danny Boyle, numa versão que é ainda hoje aclamada, e que revelou atores como Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle e Kelly Macdonald.

Tem publicados 13 romances, como “Ecstasy: Three Tales of Chemical Romance” e “Glue”, quatro livros de contos e já escreveu duas peças de teatro, “You’ll Have Had Your Hole” e “Dose”, ambos de 1998.

Para cinema, soma dois argumentos, “The Acid House” (1998) e “Wedding Belles” (2007), além das adaptações de “Porno” (2002), que inspirou o filme “T2 Trainspotting”, de 2017, e “Filth” (2013).

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