O estúdio Disney está a ser bastante criticado por ter filmado a nova versão de "Mulan" em Xinjiang e incluir um "agradecimento especial" às autoridades do departamento de segurança nos créditos finais.

Lançado na plataforma de streaming Disney+ na sexta-feira (4) em vez dos cinemas por causa da pandemia, outro agradecimento é feito no filme ao departamento de publicidade, alegadamente responsável pela propaganda oficial do estado.

O governo da província de Xinjiang é acusado de violação dos direitos humanos contra a minoria étnica muçulmana Uigur e pensa-se que terão sido detidos mais de um milhão de pessoas em  "campos de reeducação" desde 2017.

A China desmente os abusos: na semana passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, defendeu numa conferência de imprensa, em Berlim, que os campos de reeducação são antes programas que visam combater a radicalização dos uigures e prepará-los para o mercado de trabalho, através de treino vocacional.

Em várias mensagens que ganharam grande visibilidade a partir de segunda-feira (7), ativistas e jornalistas têm criticado a Disney, que se esforça por se manter à margem de debates políticos e nas legendas chama "Noroeste da China" a Xinjiang.

"Isto é verdadeiramente ultrajante: a nova versão em imagem real de 'Mulan' AGRADECE ao Departamento de Segurança Pública de Turpan (no sul de Xinjiang) nos créditos. Este departamento de segurança pública específico esteve profundamente envolvido nos campos de concentração de Xinjiang", escreveu Bethany Allen-Ebrahimian, a principal jornalista da Axios para a China.

"'Mulan' agradece ao Departamento de Segurança Pública de Turpan porque foi filmado em Turpan em 2018, o auge da campanha de reeducação. Quandos milhares de uigures foram colocados em campos pelo Departamento de Segurança Pública de Turpan quando se filmada lá o 'Mulan'", escreveu o ativista Shawn Zhang.

"Suponho que a equipa chegou ao aeroporto de Turpan e apanhou a auto-estrada G312 para o deserto de Shanshan, onde filmaram, podem ver pelo menos sete campos de reeducação", acrescentou.

"Por que é a Disney precisava trabalhar em Xinjiang? Não precisava. Existem muitas outras regiões na China e países ao redor do mundo que têm as deslumbrantes paisagens montanhosas mostradas no filme. Mas, ao fazê-lo, a Disney ajuda a normalizar um crime contra a humanidade", escreveu Isaac Stone Fish, colunista do Washington Post.

"É especialmente desagradável que eles tenham agradecido ao Departamento de Segurança Pública de Turpan, que divulgou um documento assustador dizendo aos oficiais como responder quando os parentes perguntam sobre os seus familiares em campos de concentração", reforçou.

Após rebentar a polémica, a Disney não respondeu aos pedidos de esclarecimento de vários jornais e publicações especializadas.

A nova versão de "Mulan" já tinha estado envolvida em controvérsia após a sua protagonista, Liu Yifei, nascida na China e naturalizada cidadã americana, ter apoiado publicamente em agosto do ano passado a polícia de Hong Kong, acusada de violência contra os ativistas pró-democracia.

Os apelos ao boicote da altura reemergiram aquando do lançamento do filme na Disney+, com o movimento #boycottMulan nas redes sociais a ganhar grande visibilidade em Hong Kong, Taiwan e Tailândia.

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