Russell Crowe estreia-se na cadeira de realizador com «A Promessa de Uma Vida», um drama sobre um dos momentos mais trágicos da Austrália e da Nova Zelândia: a perda de milhares de homens em Gallipoli, na Turquia, durante a 1ª Guerra Mundial.

Uma das obras maiores do cinema australiano é «Gallipoli» (1981), de Peter Weir, com Mel Gibson no principal papel, também aborda o mesmo cenário e este ano celebra-se o centenário do início do conflito na península de Gallipoli (25 de Abril de 1915) entre o Império Otomano e as forças aliadas.

O filme de Russell Crowe combina a ficção com a realidade, relatando a história de resiliência e esperança de um homem que perde os três filhos naquela batalha de trincheiras. A sua esposa suicida-se com o desgosto e Connor (Russell Crowe) decide sair da Austrália rumo à Turquia para enfrentar o improvável com o intento e a determinação resoluta de resgatar os corpos dos filhos da paisagem desolada de Gallipoli. Aqui, a interpretação de Russell Crowe está acima da média em relação dos seus últimos trabalhos, empenhado e credível num exercício de humildade e contenção dramática.

O argumento pertenceu a Andrew Knight e Andrew Anastasios. Foi este último que tropeçou numa carta de um tenente coronel australiano (interpretado na obra por Jai Courtney), que relatou a chegada de um pai australiano em busca do corpo do seu filho aquando o levantamento dos corpos do terreno de batalha no final da guerra.

Connor encontra um major que esteve presente em Gallipoli (belo apontamento do actor turco Yilmaz Erdogan), que lhe indica o paradeiro dos filhos e abre uma janela para o conflito entre turcos e gregos após o término da guerra.

O enredo é rico em pontos de interesse. A par da trama principal, a narrativa aborda a luta interna pela criação da Turquia após a dissolução do Império Otomano e evita maniqueísmos no modo como observa as marcas da guerra entre australianos e turcos.

O romance também espreita após a tragédia, com o aparecimento na história de uma viúva turca de Constantinopla que perdeu o marido na batalha de Gallipoli. trata-se de uma sub-trama algo desnecessária onde Olga Kurylenko tem uma prestação simpática.

A realização de Russell Crowe é sólida com alguns planos interessantes, mas pela negativa está o excesso de «flashbacks». A direção de actores é segura e o «casting» ajudou à construção da história. Destaque também para a direção de fotografia de Andrew Lesnie, que cria toda a envolvência visual: as filmagens realizaram-se essencialmente em Sidney e no sul da Austrália em Dezembro de 2013, pleno Verão no hemisfério sul, e mais tarde a rodagem mudou-se para Istambul para filmar em vários locais icónicos.

Os espectadores que procuram um drama histórico açucarado com uma construção clássica vão apreciar «A Promessa de Vida».
3 em 5
JORGE PINTO

REVISTA METROPOLIS