A HISTÓRIA: De madrugada até à noite, algumas horas na existência do Senhor Oscar, um ser que viaja de vida em vida. É alternadamente um abastado industrial, um assassino, um pedinte, uma criatura monstruosa, um pai de família...

"Holy Motors" está disponível na Filmin.


Crítica: Hugo Gomes

Uma invocação à sua paixão pelo cinema, que está decidido a referenciar  para lá das enésimas “serenatas à chuva”, mas com fidelidade ao seu legado enquanto autor-amante, “Holy Motors” (2012) marcou o regresso do peculiar cineasta Leos Carax, 13 anos após o fracassado “Pola X”, com Guillaume Depardieu e Yekaterina Golubeva (a sua companheira, que faleceu pouco tempo antes da rodagem de "Holy") e a sua colaboração no coletivo “Tóquio!” (ao lado de Michel Gondry e Bong Joon-ho).

O cineasta encontrou refúgio numa sala de cinema, sem qualquer ligação com o mundo exterior. O público que esgota o espaço encontra-se adormecido, sinal de tédio perante as imagens que se movimentam na tela. Trata-se de uma advertência sobre estes tempos, os do cinema saturado, exausto pela seca criativa que comete o maior crime aos seus espectadores, o de transformar o ritual da ida e volta à sala numa espécie de diluição do seu mais mundano quotidiano.

É neste cenário que Leos Carax (o próprio), um ser confinado ao seu espaço de repouso, descobre subitamente a secreta porta que o leva para essa realidade, e por vias de um desconfortante chamamento, procura o registo afetivo com o gesto da criação cinematográfica.

A partir daqui, o espectador de "Holy Motors" entranha-se, perdido perante uma panóplia de histórias que se confrontam em busca de um sentido para a sua existência, da mesma forma que o protagonista, Óscar (Denis Lavant, o ator mais associável ao cinema de Carax) se tenta debruçar sobre a sua identidade.

Para o espectador fica o mero aviso: não tente encontrar ligações entre as situações mirabolantes e diversificadas que surgem perante os nossos olhos. O que interessa, como diz um “manchado” Michel Picccoli, que surge instantaneamente da mesmo forma como desaparece, “é o amor do gesto”.

Entendemos que Óscar é um homem em vias de extinção, dos últimos da sua arte, de mil faces e almas que vagueiam pela cidade parisiense. Nele concentram-se todos os contornos da personificação do Cinema, um paralelismo (e menção) com outra figuração da Sétima Arte, a da cineasta Agnès Varda no seu esquecido especial “Les cent et une nuits de Simon Cinéma” (curiosamente, aqui era o ator Piccoli sob as vestes do centenário Sr. Simon Cinéma).

Assim sendo, interrogando-se sobre os porquês e acréscimos do seu eterno romance com a Sétima Arte e exclamando da pulcritude que é o de entrar num “não-lugar” onde todos os seus devaneios são possíveis, Leos Carax persiste em “encaminhar” os espectadores para um universo em que fantasmas percorrem as ruas da capital com mais vivência que os próprios vivos.

É neste processo de criação e construção de um mundo tão próprio como íntimo que o realizador cataloga um leque de personagens bizarras, negras e singulares. Cada uma dessas invocações tem como propósito homenagear os diferentes tipos e géneros de cinema, dos estilos às metáforas.

Viajamos dos primórdios clássicos do cinema mudo à complexidade visual da era tecnológica moderna (como podemos assistir nas sequências de "motion-capture" de tamanha beleza e sensualidade), passando pelo musical "hollywoodesco" e emocionante que a cantora e atriz australiana Kylie Minogue interpreta com alma, até chegarmos à prosopopeia cinematográfica assistida no último tomo, quando a limusina que transporta o nosso “viajante cinematográfico” decide demonstrar a sua personalidade, como um produto digno da Disney-Pixar.

Com este biótopo erguido por igual fascínio de primeiro contacto, “Holy Motors” é, na sua simplicidade, cinema de muitas variantes, muitos requintes e muitos “amores”, tornando-o quase inclassificável dentro do seu próprio seio. Por assim dizer, um ovni! Porém, um dos mais belos do cinema recente.

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