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Crítica "São Jorge": Um murro contra a Troika

No novo filme de Marco Martins, "São Jorge", o negrume da noite ecoa no lado urbano depressivo de Lisboa e o realismo social mistura-se com o classicismo americano dos filmes de boxe, onde o ator Nuno Lopes deambula com o seu corpo duro, mas de rosto frágil, desamparado e pronto para combater o dragão da sua vida.

Nuno Lopes é Jorge; a Troika, o dragão… e o realizador Marco Martins, o autor de um retrato intenso da crise económica portuguesa, onde os pares se viraram contra si mesmos e muitos foram os atos feitos à revelia dos nossos próprios ideais.

Com José Raposo a dominar uma "família" circunstancial (composta por não atores de um bairro de Lisboa), assistimos a um microcosmos igual a tantos outros por Portugal fora, onde a realidade é austera e os temas à volta da mesa, comuns: o subsídio de desemprego, as formações levianas para baixar estatísticas, a opção entre receber o subsídio ou trabalhar e ter descontos… tudo num discurso corrente do dia a dia onde a câmara de Marco Martins é mais uma personagem que os ouve e deixa falar.

Jorge também vive debaixo do tecto do seu pai manipulador, mentiroso e oportunista, que o empurra para combates de boxe, para mais um "dinheirinho". Perdeu o emprego e luta para não perder a família: o seu filho e a namorada que o ameaça que vai voltar para o Brasil.

Mas Jorge, com o poder físico do boxe, encontra uma oportunidade que cedo percebe que vai contra os seus princípios: ser coletor de dívidas para uma agência de crédito… posição onde lhe pedem para usar da força, para intimidar os devedores. E quando cobra a única dívida que não devia ter cobrado… é enervante e sincera a escolha de Nuno Lopes e Marco Martins, que, mesmo no desespero e na angústia de estar a agir erroneamente, fazem Jorge tentar manter o respeito, honestidade e lembrando o seu bom coração: tratando o seu alvo por "você" sem qualquer tipo de cinismo ou ironia, enquanto o violenta fisicamente.

"São Jorge" é um filme de Marco Martins e de Nuno Lopes, vencedor do Prémio para Melhor Ator em Veneza, pois o enquadramento claustrofóbico que Martins escolhe para acompanhar a personagem principal – com a câmara fechada entre a nuca e os ombros – marca a repressão e a violência inerente dos músculos tensos de Lopes, que de repente se estendem e explodem em combate… ou delicadamente abraçam o seu filho.

Autor: Daniel Antero

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