A HISTÓRIA: O que devia ser uma manifestação pacífica transformou-se num violento confronto com a polícia. O julgamento que se seguiu foi um dos mais marcantes da história.

"Os 7 de Chicago": disponível na Netflix a partir de 16 de outubro.


Crítica: Daniel Antero

O argumentista e realizador Aaron Sorkin vagueia na sua mente em busca da palavra certa como as suas personagens pelos corredores das grandes instituições. Estas caminham tão rápido quanto digladiam pensamentos que se erguem como argumentos de poder e jogos de dialética.

De "Uma Questão de Honra" ao oscarizado "A Rede Social", passando pela série "Os Homens do Presidente", pode-se ver a sensibilidade da sua escrita como pretensiosa, grandiosa, precisa e perfurante. Sorkin agradece, pois vive da retórica e da sua capacidade de debitar conflitos com dicção e vocabulário exímio a um ritmo por vezes vertiginoso.

"Os 7 de Chicago", o filme que estreia agora na Netflix, traz esta sua faceta bem vincada, complementada com uma força cívica e um prazer mordaz em confrontar as manipulações dos governos e dos tribunais.

Decorria o ano de 1968, quando uma manifestação anti-guerra durante a Convenção Nacional Democrática em Chicago se tornou caótica e um motim violento foi despoletado. A administração Nixon, que, entretanto, sobe ao poder, não quer deixar esta ação impune e acusa sete membros do protesto de conspiração e incitação à violência. Se é verdade ou não, pouco interessa. E até são oito a sentarem-se no banco dos réus, pois um líder dos Black Panthers é arrastado em mais uma manobra política, tornando-se alvo de ações racistas em plena sala de tribunal.

O argumento do filme discorre então várias sessões do julgamento, onde os arguidos sabem que não é a justiça que os espera, mas um circo mediático, onde verão a força política manchar o sistema judicial por meio de um jogo sujo de conspiração do FBI e um juiz corrupto que os despreza e os considera culpados à partida.

Aqueles terão de se alinhar e confrontar as suas diferentes abordagens, sem nunca esquecer o que os motivou inicialmente a partir de punho erguido: os soldados mortos e aqueles prestes a perder a vida na guerra do Vietname.

Estruturado de forma cativante, "Os 7 de Chicago" tem um "ensemble" de atores fortíssimo e entusiasmante que tornam o tribunal numa arena de combate. As linhas de diálogo de Aaron Sorkin são as armas à disposição e embora sejam claramente engenhosas e estruturalmente dispostas, a inteligência e o espírito de atores como Mark Rylance, Sacha Baron Cohen, Eddie Redmayne ou Frank Langella fazem com que pareçam incrivelmente espontâneas e sentidas.

Este talento à solta permite a Sorkin saltar para dentro e fora do tribunal, intercalando com intrincada montagem e uma sempre pujante banda sonora de Daniel Pemberton vários momentos: os tumultos da manifestação com material de arquivo; as reuniões de bastidores entre os arguidos e o seu advogado; a intrusão do FBI e a pressão sobre uma testemunha-chave poderosa (interpretada por um ator que não revelamos); a injustiça sobre o líder dos Black Panthers, literalmente manietado e usado para ser o rosto da violência.

Com tudo isto, Sorkin eleva a tensão e o sentimento de revolta contra este momento vergonhoso do passado, sem nunca deixar ao acaso a força daquilo que unia os ativistas, agora arguidos: a palavra. Pois num momento superior, uma palavra basta para definir quem dos sete se sentará no banco das testemunhas e entender como cada lado da política força a interpretação sobre os discursos de comentário, debate e protesto.

Em vésperas de eleições norte-americanas, onde vemos agendas propagandistas que perspetivam ou silenciam a verdade, o propósito de Aaron Sorkin e o paralelismo de ""Os 7 de Chicago" com os nossos tempos é claro e evidente.

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