A HISTÓRIA: Patrick, 20 anos, vive em Paris com o namorado, mais velho. Gere um site de pornografia adolescente, o que o leva a ser preso, após uma rusga numa festa. Mário, um menino de anos, foi raptado em Portugal, há 12 anos. Patrick e Mário são a mesma pessoa, e essas duas identidades estão em conflito: a vida de festas, drogas e promiscuidade em Paris; e a sua nova vida rural em Portugal, onde se sente obrigado a criar ligações com uma família destruída.

"Patrick": nos cinemas a 23 de julho.


Crítica: Hugo Gomes

Quase como um gesto animalesco, a mãe renega o seu “rebento” por causa dos seus “cheiros” irreconhecíveis, vindos de um mundo oposto, o de uma moderna Paris. Ele não é o filho que recordava do mundo rural, já não é o seu esperado Mário. Agora, é Patrick, que desconhece e com quem não deseja estabelecer contacto.

Nesta sua estreia como realizador de longas-metragens, o ator Gonçalo Waddington propõe uma história que desvenda o segredo dos deuses da maternidade e paternidade, desconstruindo-os ao sabor do vento do senso comum.Livremente inspirado pelo verídico caso Rui Pedro (o do desaparecimento em 1998, ainda sem resolução, de uma criança em Lousada), “Patrick” não determina um episódio de reencontros e resgates de um submundo preenchido por drogas, pedofilia e outras decadências, mas antes um confronto identitário silencioso.

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Gonçalo Waddington já havia assinado parte do argumento de “Mosquito”, obra de portentos técnicos dentro do panorama português, que se aventurava em territórios sagrados da identidade nacionalista. Em “Patrick”, e em oposição a outros foros psicológicos e às complexidades dos afetos, é a imagem da "inabalável" mãe à portuguesa que fica em causa e se torna o alvo a abater (papel de Teresa Sobral).

Nesse sentido, enquanto realizador, propõe-nos, enquanto espectadores, um debate sobre a condição de progenitor e as dúvidas existencialistas entre Patrick e Mário (interpretados por Hugo Fernandes). Numa espécie de catarse de salvação, existe apenas uma luminosa prima (Alba Baptista), que tenta que Patrick invoque as memórias de Mário e reaja ao passado.

Todos querem encontrar um Mário em Patrick, mas receiam a aproximação, o contacto. Tal como a câmara, constituída sobretudo por expressivos planos contínuos (os "travellings"), como aquele que, iniciado de forma rasteira e sorrateira, é o nosso primeiro contacto com Patrick, contornando o seu corpo vazio, o campo de batalha onde ocorrerá a luta árdua de afirmação.

A fotografia de Vasco Viana faz o resto, salientando esse contraste entre a ruralidade de um país fechado e ainda engolido pelas sombras do pesar e a ampla variedade de experiências de uma cosmopolita Paris.

No seu todo, "Patrick" funciona como uma prolongada tese sobre maternidade e identidade, mas é também a afirmação de um possível autor que parece querer trazer ao nosso cinema um tom provocatório que estava a precisar.

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