Não há nada para estranhar no novo álbum de Kanye West. Haveria motivos para isso se "Yeezus" fosse um disco de 50 Cent ou até de Common, mas não. Este é mais um passo em frente na carreira de um rapper que descobriu que pode ser mais do que isso. Há muito que Kanye West libertou a sua música de paredes e de pré-conceitos. As suas canções passaram a ser arte e para quem faz arte as regras são outras: não há regras. Isto já não é rap, mas também não sabemos muito bem o que é.

"Yeezus" era seguramente um dos discos mais aguardados do ano e não é novidade que, quando se trata da promoção do seu trabalho, o sr. West serve-se de todos os recursos disponíveis para não passar despercebido.
Mas desta vez faltou o single que costuma tornar-se na canção do ano - as rádios não devem ter achado muita piada. Faltou a polémica que o rapper costuma arranjar quando vai colocar um disco novo nas prateleiras. E faltou um videoclip a rodar nos principais canais de música do mundo.

Há claramente uma aposta na música, e apenas na música, que se reflete também na edição física do disco, que não traz qualquer tipo de artwork ou capa. Não se trata de algo novo na indústria musical, mas para um artista que sempre se preocupou com a estética dos seus trabalhos, acaba por ser surpreendente.

Tal como aconteceu com "808s & Heartbreak" (2008) e "My Beautiful Dark Twisted Fantasy" (2010), "Yeezus" não deixará ninguém indiferente - ou se adora ou se detesta e desconfiamos que poucos conseguirão fugir a um destes dois extremos.

Uma das curiosidades é a participação dos Daft Punk como produtores de quatro temas. A dupla de DJs lançou um dos discos mais desejados do ano, "Random Access Memories", mas chega a ser irónico que baste um par de audições para que "Yeezus" no faça esquecer o álbum dos franceses.

O disco arranca de forma efervescente com "On Sight", seguido de "Black Skinhead", temas que contam com a participação da dupla de "One More Time" e "Da Funk". Repletas de referências, estas canções transitam pelo rock industrial, electrónica, noise, punk e, claro, rap, onde tudo começou. O sr. West não tem problemas em apresentar um som cru, com sintetizadores distorcidos, ritmos tribais, e, em certos momentos, optar pela total ausência de instrumentos melódicos, algo que é novo na sua música.

Mas as novidades continuam: em "I Am A God", West apresenta-se mais uma vez como um deus com o complexo de Deus. O tema contém elementos house e electro, mas sem problemas em ser sujo. Podemos ouvir gritos e CDs em skip enquanto os Daft Punk continuam a dar uma ajuda na produção.

Pouco depois, rapidamente damos por nós a mexermo-nos ao som de "New Slaves". Esta faixa pode faz-nos lembrar de "Power", single de apresentação de "My Beautiful Dark Twisted Fantasy". Quase minimalista no seu início, a faixa vai crescendo até que se enche de melodias. West continua agressivo nas suas letras e aqui apresenta-se como um líder, "You see there’s leaders and there’s followers /But I’d rather be a dick than a swallower". Sem meias palavras, com a crueza (ou descaramento?) a que o seu autor nos habituou, este é um dos temas mais viciantes do disco.

Quando o assunto são canções que merecem ser ouvidas váriaz vezes, "Hold My Liquor" é (mais) uma delas. Aqui ouvimos um Kanye West bêbado falar das suas experiências sexuais. As influências dos anos 80 fazem-se sentir, o auto-tune faz-se notar com alguma força, mas é esta assumida simplicidade que nos atrai. Já "Im In It" apresenta-se cheia de variações, com várias as nuances, onde se viaja entre o industrial e o dancehall.

Pelo meio de "Yeezus" encontramos, porém, um vestígio do "velho" Kanye West, em "Blood On The Leaves". O sample soulful de Nina Simone, o auto-tune ao extremo, bem ao estilo de "808s & Heartbreak" e as dinâmicas da música trabalhadas na perfeição fazem deste um momento que está próximo da zona de conforto de Kanye e, como tal, é perfeito.

Há um tema recorrente nas canções de Kanye: relacionamentos falhados, seja ele a admitir as suas falhas ou a apontar o dedo. Em "Yeezus" encontramos isso em "Guilt Trip". Na produção, West mostra que sabe trabalhar bem o MPC, com vários samples a serem disparados constantemente.

Até aqui ainda não ouvimos o hip-hop bem ao estilo Kanye, mas a verdade é que ainda não fez falta. "Send It Up" traz de novo os Daft Punk na produção, os elementos de rock industrial e apresenta-nos a ironia de Kanye, pronta a divertir admiradores e a irritar outros tantos detratores: "Can you get my friends in the club/ Can you get my Benz in the club/ If not, treat your friends like my Benz: park they ass outside until the evening ends".

Entre muitas novidades, há ainda algo guardado para os fãs da estreia de West, "The College Dropout" (2004): "Bound 2" vai aos anos 70 buscar um sample dos Ponderosa Twins Plus One e mostra o sr. West a cuspir rimas. O rapper aceita a sua reputação de "deixar tristes mulheres bonitas", mas admite que "uma boa miúda é melhor do que mil cabras".

Apresentando-nos um Kanye West como nunca ou ouvimos - e dificilmente o imaginaríamos -, "Yeezus" são 10 faixas que nos deixam a pedir por mais. Quem gostou como nós, também vai gostar de saber que há rumores, lançados por Rick Rubin (co-produtor executivo do disco), de que poderá ser lançada uma segunda parte do álbum. Por agora, "Yeezus" é Kanye West a confirmar que não há fronteiras para sua música, a deixar para trás o rótulo de rapper e a vestir cada vez mais o traje de artista completo e inclassificável. Como ele próprio canta, "the only rapper compared to Michael (Jackson)". "Yeezus" é, por isso, só mais uma prova de que a arte é o evangelho de Kanye West.

@Edson Vital

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