Quem conheça Dealema desde os tempos de “Expresso do Submundo” está certamente familiarizado com a faceta mais «arockalhada» do quinteto da cidade invicta. Se tomarmos como exemplo o lado pesado do “1º Assalto” de Mundo e Expeão, o conteúdo lírico de Fuse, que por vezes se manifesta mais escuro e profundo que as vertentes mais mórbidas e melancólicas do metal; e as vivências pré-dealemáticas de alguns membros nas áreas do hardcore e punk-rock, seria de prever que algum dia as estradas a solo dos seus elementos pudessem vir a curvar em direção a outros campos.

Assim aconteceu com Rui Pina (Expeão). “O Fim de Todas as Estradas” representa todo esse desaguar de influências que levaram o MC a expor a sua vertente rockeira ao público. Mas não só. Este álbum reflete também uma vontade de se desprender das máquinas e da componente electrónica, para abraçar o lado humano e orgânico da música. Porém, este Expeão que subiu ao palco do Musicbox, na passada sexta-feira, continua igual a si próprio. Apenas trocou o plástico do vinil e os potenciómetros da mesa de mistura por algo que bombeasse sangue e vitalidade no seu novo álbum, e, consequentemente, nas atuações ao vivo.

Assim sendo, para a apresentação de “O Fim de Todas as Estradas”, o mais recente trabalho, que sucede a “Máscara” e que respira toda a essência do rock dos anos 70, Expeão fez-se acompanhar d’Os Infiltrados, uma banda composta por teclas, baixo, bateria e guitarra. No entanto, a música que no disco transpira influências de bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath, CREAM, ou até mesmo Doors, ganha uma nova roupagem e alma quando tocada ao vivo, transformando-se por vezes numa inflexão em direção aos domínios do hardcore, onde não estranhamos aromasde Rage Against The Machine eda fase primordial dos Beastie Boys.

Expião e os seus Infiltrados inauguraram a setlist com o “Twang e o Poder”, tema de abertura de “O Fim de Todas as Estradas”, levando o público, que não foi suficiente para lotar o Musicbox, a aproximar-se do palco. Ficou logo saliente na primeira canção a boa interação que existe entre Expeão e a banda que o acompanha. O entendimento entre os membros do coletivo – chamemos-lhe assim – foi a chave da boa performance do concerto da passada sexta-feira. Os solos de guitarra e teclas tomaram as suas devidas posições no decorrer das músicas e os efeitos sonoros lançados pelo próprio Expeão – a partir de uns teclados ligados a um computador – demonstraram a vontade que o MC tem de não ficar restrito ao exercício vocal.

Foi num rol de canções do álbum mais recente, mas também do disco de estreia, “Máscara”, que o concerto continuou. “O teu Amor Por Mim”, primeiro single de “O Fim de Todas As Estradas”, colocou em clara evidencia o lado mais alegre e extrovertido de álbum, enquanto “Tiro no Escuro” mergulhou os nossos ouvidos nos relatos escuros e pesados das vivências de rua. Mas um dos grandes momentos da noite deu-se quando as belíssimas estrofes de Expeão repousaram solitárias sobre a melodia de piano de “Poeta Falhado”, com o novelo de uma das músicas mais esplendorosas do álbum a desenrolar-se e a patentear a veia poética do MC. Um momento vivido de forma emotiva no palco e na plateia. Magistral. Do concerto destacaram-se ainda “Máscara”, “Pombas Brancas da Cidade” e “Bairro”, todas elas do disco de estreia do artista.

Assim se traduz a vontade de Rui Pina de explorar novos caminhos. Sem perder a mestria da rima que o acompanha desde 96, o músico arrisca, sem medo de falhar, numa nova aventura que certamente o levará a bom porto. É caso para dizer que “O Fim de Todas as Estradas” poderá ser, de facto, o início de uma nova caminhada para Expeão.

Manuel Rodrigues

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