O maestro e compositor disserta sobre “os diversos graus de qualidade [da música] que vão do bom ao muito bom, do ótimo ao genial”, afirmando que “não será tão desejável chafurdar numa pesquisa entre o mau e o muito mau, o péssimo e o horrendo”.

“E eu estaria ainda tentado a citar o nada, que julgo ser um repertório cada vez mais promovido e mesmo apreciado, fenómeno que se reveste de uma lógica de mercado perfeitamente inatacável: os autores desse alegado nada podem desaparecer sem quaisquer problemas, de forma trágica ou prosaica, por falecimento ou entrada para a função pública, pois haverá sempre material em stock pronto a substituir o seu esforço criativo”, escreve o maestro.

Numa mensagem de cerca de 4.000 caracteres, o músico realça que “antes de mais nada”, é “necessário que se levante […] o problema do subjetivismo que terá infalivelmente que presidir a um julgamento da qualidade” e questiona: “Haverá, com efeito, um critério rigoroso que possa de algum modo garantir que esta música é boa ou má, transcendente ou… até nada?!”.

O compositor questiona se “será correto que se valorize a harmonia de um trecho em que o acorde sobre a qual assenta todo o discurso musical, a chamada tónica, apenas se desloca para o acorde do quinto grau, a chamada dominante, regressando logo de seguida ao ponto de partida, depois de uma curta e prudente passagem pela subdominante, que fica quatro notas acima”.

Autor de mais de 50 obras eruditas, como "Páscoa no Minho", para Victorino d’Almeida “os termos erudito ou sério sempre significaram alguém que ‘sabe muito’ ou alguém que cumpre o elementar preceito de ser honesto”.

Ao longo da mensagem, o autor do "Fado do Campo Grande", desmonta os diversos conceitos em torno da música e a dado passo afirma: “eu nunca atribuí ao adjetivo ligeiro um sentido pejorativo, pois também sempre considerei que comer uma refeição ligeira não significa comer mal”.

O maestro crítica “o vício de classificar e de qualificar [que] ainda se torna mais penoso quando as pessoas se esquecem de que há diversas situações em que uma certa música, seja qual for o estilo, pode tornar-se desejável ou aberrante, pois o sentido do Belo também se insere na eterna questão do Bom Senso e Bom Gosto”.

A terminar, Victorino d’Almeida refere que “a sociedade portuguesa ignora quase completamente todo um vastíssimo património de obras de arte geniais.

“É possível viver sem se conhecer nenhuma peça de Shakespeare, de Tchekov, muito confundido com Tchaikowsky em meios alegadamente mais cultos, pois os ignorantes puros nunca ouviram falar de tal gente, de Brecht ou de Samwel Becket”, questiona.

“É possível, em suma, viver sem o Belo?”, interroga o maestro para responder ele próprio: “Claro que é possível! É evidente que é possível, pois as pessoas podem inclusivamente viver castradas e encontrar formas mais ou menos divertidas de passar o tempo, […] sem dúvida que é possível viver assim. Mas não é a mesma coisa…”.

@Lusa

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