É, talvez, inevitável que este filme, dirigido por David Ayer, argumentista de «Dia de Treino» (Antoine Fuqua, 2001), seja comparado com «Sacanas sem Lei» (Quentin Tarantino, 2009). Por dois óbvios motivos: primeiro, o facto de ambos se organizarem a partir de um grupo de soldados empenhados em combater de forma implacável os nazis; segundo, a presença de Brad Pitt nos dois elencos, de algum modo construindo personagens que se aproximam pela sua mistura de sedução, heroísmo e desencanto.

Na verdade, vale a pena sublinhar que estamos perante uma aproximação bem diversa dos tempos finais da Segunda Guerra Mundial: o filme de Tarantino assumia-se como uma saga violenta que não rejeitava a distanciação própria da farsa, enquanto o argumento e a realização de Ayer vão no sentido de explorar um contexto de exacerbado realismo em que a crueza irrecusável da guerra não conhece fronteiras morais, ideológicas ou simbólicas.

Nesta perspetiva, e apesar de «Fúria» ser um típico produto de estúdio «made in Hollywood», creio que o podemos inscrever numa tendência recente, transversal a várias cinematografias, de revisitação critica das temáticas clássicas do conflito de 1939-45, de que o notável «Lore» (2012), de Cate Shortland, poderá ser o exemplo mais sintomático. Trata-se, assim, de revisitar uma paisagem apocalíptica — os soldados alemães estão a ceder e o triunfo das tropas aliadas revela-se iminente — em que o pressentimento do final dos combates gera uma espécie de «terra de ninguém» filosófica em que a bondade e a carnificina coexistem numa perturbante intimidade.

O impacto de «Fúria» (o título corresponde à palavra inscrita no canhão do tanque em que se desloca o grupo liderado pela personagem de Brad Pitt) nasce, assim, de uma espécie de dilatação temporal das situações que, curiosamente, contraria a lógica mais tradicional de «acção e reação» no interior dos códigos do filme de guerra. Nem sempre David Ayer conseguirá sustentar tão frágil dramaturgia, mas é um facto que essa procura de uma duração capaz de conter o misto de agressividade e pânico que a guerra pode instalar gera algumas cenas muito fortes. Penso, sobretudo, na longa e inquietante situação que se desenvolve na casa de duas mulheres alemãs, «assaltada» pelo colectivo de soldados que domina o filme — por tal cena perpassa uma ilusória sensação de utopia, logo esmagada pela frieza implacável da realidade bélica; além do mais, aí reencontramos a brilhante actriz romena Anamaria Marinca que descobrimos, em 2007, na Palma de Ouro de Cannes, «4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias».


3 estrelas
Revista Metropolis