Madrid, Edimburgo, Finlândia, México, Brasil, Japão, Portugal. «Começa a parecer-me absurda esta maneira de viver», desabafa
Saramago. A câmara e os microfones de
Miguel Gonçalves Mendes captaram esta e outras confissões ao longo de quatro anos a vida do Prémio Nobel.

A viagem pelos dias cheios de Saramago e Pilar começou em Junho de 2006. Aos momentos de serenidade na ilha de Lanzarote, seguiram-se dias cheios: viagens, entrevistas, encontros, uma peça de teatro com
Gael García Bernal, mais entrevistas, e... Pilar.

E por isso mesmo, o realizador Miguel Gonçalves Mendes esclarece: este filme não é sobre José Saramago mas sim sobre o amor entre José Saramago e Pilar del Rio. «No fundo o que pretendo é que quem assista a este filma saia da sala de cinema e sinta que conheceu este casal, estas duas pessoas brilhantes, de uma forma íntima».

Miguel faz o relato da reacção do escritor na altura em que viu as primeiras imagens do filme. «No dia em que o José e a Pilar viram a primeira versão do filme, ele no fim disse para a Pilar: «Pilar, isto é uma grande dedicatória de amor à tua pessoa». Ao que ela respondeu: «E a minha vida também é uma grande dedicatória de amor».»

Uma história «surpreendentemente bonita» que Miguel quis contar. Convencer José Saramago não foi fácil, confessa o jovem cineasta, mas com insistência conseguiu. Mais difícil parecia estar o processo de angariação de fundos. A primeira tentativa foi ter o apoio do ICAM (Instituto do Cinema e Audiovisual e Multimédia, agora apenas ICA) que não aceitou o projecto. Miguel sonhou alto e enviou uma proposta de co-produção à El Deseo, do realizador
Pedro Almodóvar. O «sim» chegou no dia seguinte.

À terceira tentativa, o ICAM confirmou também o seu apoio (50 mil euros, o primeiro subsídio de Miguel), e o ano passado foi a vez da Câmara de Lisboa contribuir com 30 mil euros para o filme. Em fase de finalização, o filme é também co-produzido com a O2, produtora do realizador de
Fernando Meirelles e tem como parceira a SIC que tem o exclusivo da transmissão televisiva do documentário. O orçamento total ficou nos 300 mil euros.

O filme, que esteve inicialmente para ser lançado em 2008, foi vendo a data de estreia ser retardada por falta de verba e disponibilidade de rodagem por parte de Saramago e Pilar.

Tem agora data de estreia para 14 de Outubro, com filme de abertura do DocLisboa. A estreia comercial acontece um mês depois, a 16 de Novembro, data em que José Saramago completaria 88 anos.

Um filme e um amigo

Ao início, o realizador Miguel Gonçalves Mendes era apenas mais um a querer «registar» o Prémio Nobel. No currículo tinha já o Prémio de Melhor Documentário do DocLisboa com
«Autografia» (2004), um registo íntimo de
Mário Cesariny. Com o tempo, José e Miguel ficaram amigos, revelou o realizador. Uma intimidade que lhe permite desenhar o perfil do casal. «O José, como português que é, é sentimental e melancólico e a Pilar determinada e veemente, tipicamente espanhola. Há um momento no filme em que o José diz: «Eu tenho ideias para novelas, a Pilar tem ideias para a vida e, eu não sei o que é mais importante».»

Um retrato que Miguel espera também que traga nova luz sobre a personalidade de Saramago. «Existem algumas pessoas que dizem que o José é um incendiário, mas ele não o é de maneira nenhuma. É simplesmente lúcido. É uma pessoa que dentro do possível e dentro do que está ao seu alcance, tenta melhorar o mundo através do impacto que as suas opiniões possam ter naqueles que as ouvem. E ao contrário da arrogância de que muitos o acusam, o José é de uma doçura e simpatia incríveis e possui um sentido de humor que é brilhante».

Com a morte de José Saramago, o documentário ganha inevitavelmente uma nova dimensão. Miguel estava a trabalhar quando um amigo lhe telefonou, dando conta da morte de Saramago. «É um profundo pesar, pois acima de tudo perdi um amigo, um pessoa que admiro muito e que me é muito querido», afirma Miguel Mendes. «Mas a minha dor por ser pessoal é indiferente, pois o que o Saramago nos deixa é infinito».

Imortalizado em filme ficará agora também o registo pessoal de Saramago, um retrato profundo para lá de um rosto mais ou menos carregado. Um retrato de uma história de amor, que foi nos últimos vinte anos marcante na vida do escritor. «Para ser honesto, neste filme, são as coisas simples e banais do dia-a-dia, que são verdadeiramente mágicas», diz Miguel. «O resto é trabalho».

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Foto:
Susana Paiva.

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