Disponível em Portugal desde 2016, a Filmin é uma plataforma de cinema que se distingue pelo cuidado e toque pessoal na apresentação em canais e coleções temáticas dos seus filmes, seja o dos grandes estúdios de Hollywood ou do circuito independente e de autor, europeu, americano ou asiático.

Num momento em que acumulam tantas tensões políticas, sociais e económicas em vários pontos do mundo, escolhemos cinco filmes polémicos entre vários que estão disponíveis sobre sociedades muito diferentes que oferecem reflexões importantes sobre estes e outros tempos. Fazem parte de um cinema feito de causas e militância, de revolta e humanismo, tão temido e proibido pela ousadia de revelarem o que alguns poderes querem esconder ou reprimir, sobre o mais básico dos valores: o direito à liberdade de viver.

O Grande Ditador (1940)

Nomeado para cinco Óscares, incluindo Melhor Filme, "O Grande Ditador" é uma das obras-primas absolutas de Charlie Chaplin, ao lado de outras como “A Quimera do Ouro” (1925), “Luzes da Cidade” (1931), “Tempos Modernos” (1936) ou “Luzes da Ribalta” (1952), algumas das quais estão disponíveis na Filmin.

Um dos mais importantes títulos de comédia, sátira e política da história do cinema, não é menos do que fascinante ver o que Chaplin faz na sua primeira longa-metragem totalmente com som e diálogos e que, ainda por cima, foi feita e estreada quando os EUA eram ainda uma potência neutral, antes da entrada no conflito em dezembro de 1941: esta é a história de um ditador, Adenoid Hynkel, que queria alargar o seu império para lá da Tomainia e, ao mesmo tempo, um pobre barbeiro judeu, muito parecido, que era perseguido pelo seu regime.

Entre o sinistro "ballet" de Hynkel com um globo do planeta Terra e o otimismo do discurso final, "O Grande Ditador" transcende o seu tempo e continua a ser um grande hino ao humanismo.  Alegadamente inspirada pelo visionamento do filme de propaganda "O Triunfo da Vontade", de Leni Riefenstahl, Chaplin interpreta tanto Hynkel como o judeu pobre, os dois extremos da natureza humana, nesta condenação inequívoca do anti-semitismo, do fascismo e dos seus ditadores, que, sem qualquer surpresa, foi banida em vários países cujos governos eram aliados ou simpatizantes da Alemanha nazi...

O Mal não Existe (2020)

Vencedor do Urso de Ouro no 70.º Festival de Berlim e inspirado em eventos reais da vida do realizador, este filme recente e urgente é de visionamento essencial para se conhecerem as tensões que existem e estão a explodir no interior do regime dos aiatolás no Irão.

Condenado por "propaganda contra o sistema" a um ano de prisão e impedido de sair do seu país e de participar em atividades políticas e sociais por causa de três filmes, incluindo o drama sobre corrupção e injustiça na sociedade "Lerd", premiado na mostra "Um Certain Regard" de Cannes em 2017, o realizador Mohammad Rasoulof rodou em segredo uma antologia de quatro histórias sobre militares encarregues de aplicar a pena de morte, um tema tabu no Irão, vista pelos executores e pelas famílias das vítimas, da forma como lutam com as suas ações, lidam com as consequências e testemunham o impacto que isso tem nas pessoas que lhes são mais próximas.

"Quis falar sobre as pessoas que tomam decisões baseadas na pressão externa. Das pessoas que fogem da responsabilidade, mas que têm a possibilidade de dizer não", recordou durante uma breve participação por videoconferência no telemóvel na conferência de imprensa em Berlim.

O regime não perdoou a nova ousadia e dissidência de "O Mal Não Existe": ainda antes da enorme onda de protestos pela morte de Mahsa Amini após ser detida pela polícia da moralidade de Teerão, Mohammad Rasoulof foi preso em julho com os colegas Jafar Panahi (com vários títulos disponíveis na Filmin) e Mostafa Aleahmad sob a acusação de perturbação da ordem pública e de terem encorajado protestos contra as autoridades após o colapso de um prédio em maio no sudoeste do país que causou mais de 40 mortos.

A Batalha de Argel (1965)

Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza e nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Realização e História Original e Argumento (em dois anos não consecutivos, um feito único na história das estatuetas), "A Batalha de Argel" é um retrato histórico sobre as campanhas da guerrilha que culminariam na independência da Argélia em relação à França em 1962.

A história começa e termina com Ali La Pointe (Brahim Hadjadj), um gatuno analfabeto com um longo currículo criminoso que é recrutado para a Frente de Liberação Nacional argelina após despertar para a opressão colonial francesa numa das suas passagens pela prisão, quando assiste da janela da sua cela à execução de um preso vinculado ao movimento.

Banido durante cinco anos em França, aclamado por Stanley Kubrick e com assumida influência em cineastas como Ken Loach, Steven Soderbergh ou Christopher Nolan, "A Batalha de Argel" faz parte das listas de melhores filmes de sempre e é de visionamento obrigatório para estudiosos de temas políticos e militares.

Gillo Pontecorvo rodou um filme que recorda os do Neo-Realismo de Roberto Rossellini, com imagens a preto e branco e granuladas, e acontecimentos históricos reencenados como se de um documentário ou reportagem televisiva se tratassem, maioritariamente com atores não profissionais e antigos participantes na própria guerrilha. Mas se tudo isto reforça a credibilidade e realismo, por detrás do seu impacto duradoiro está uma opção de encenação dramática: apesar de não esconder de que lado estão as suas simpatias, os combatentes e as posições dos dois lados são retratados com complexidade, sem falsos heroísmos... nem escondendo as suas atrocidades.

O Acto de Matar (2013)

Nomeado para o Óscar de Melhor Documentário, vencedor e nomeado para dezenas de outros prémios, "O Acto de Matar", o melhor filme de 2013 para a prestigiada revista "Sight & Sound", é uma proposta estarrecedora de cinema.

A história regressa à memória do genocídio na Indonésia de 1965–66, quando mais de um milhão de pessoas foram assassinadas em menos de um ano após o governo ser derrubado pelo exército. Num país que ainda celebra os perpetradores como heróis, o realizador Joshua Oppenheimer e a sua equipa foram ao encontro de líderes impenitentes dos esquadrões da morte como Anwar e os seus amigos, desafiando-os a encenar os seus próprios papéis no massacre para as câmaras. Só Anwar assassinou centenas de pessoas com as suas próprias mãos, mas a evocação nada tem de documental: estes homens querem ser as estrelas dos seus géneros cinematográficos preferidos, dos filmes de gangsters aos westerns e até musicais, escrevem os guiões e interpretam-se a si mesmos.... bem como às suas vítimas.

O resultado evoca a "banalização do mal" que Hannah Arendt descreveu após assistir ao julgamento em Isarel de Adolf Eichmann, o nazi arquiteto da "Solução Final": homens normais transformados em assassinos em massa por um regime de profunda corrupção, impunidade e desprezo humano. Aos poucos, a terrível e alucinada reencenação faz com que os alguns dos seus intérpretes comecem finalmente a "pensar" nos atos que cometeram. Para as suas vítimas, foi demasiado tarde.

O Couraçado Potemkine (1925)

A Revolução de 1905 na Rússia czarista inspirou outra no cinema: colocando em prática as suas teorias sobre a montagem como um um meio para manipular as emoções do público e não apenas o processo de ligar cenas, o segundo filme revelou Sergei Eisenstein como um pioneiro aos 27 anos, inspirando as gerações de cineastas seguintes, incluindo Orson Welles para a sua estreia aos 24 com "O Mundo a Seus Pés".

Baseado nos factos históricos do motim do navio de guerra Potemkine, iniciado quando a tripulação alegadamente recebeu carne podre para jantar, e a tragédia que se seguiu, que pressagiou a Revolução de 1917, tem uma das mais famosas sequências da história do cinema: o massacre na escadaria de Odessa, quando a população, pondo-se ao lado da tripulação revoltosa, é reprimida pelas forças militares.

Um dos melhores filmes da história do cinema, mas também com uma assumida dimensão propagandística ao serviço do ideologia comunista e soviética, "O Couraçado Potemkine" esteve proibido muitos anos em Portugal só estreou a 19 de maio de 1974 e nem o facto de ser mudo impediu que esgotasse salas, após cair o regime que considerou qualquer filme russo entre 1936 e 1970 como suspeito e interdito (após o fim da Segunda Guerra Mundial e a formação do bloco comunista, a mesma proibição estendeu-se ao cinema dos países da Europa de Leste). O que não impediu que o cinema de Eisenstein e Dziga Vertov seduzisse a crítica, os realizadores e determinasse a estética de filmes como “Maria do Mar”, “Revolução de Maio” e “A Aldeia da Roupa Branca”.

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