“O desaparecimento ocorreu no final de uma longa doença. O mestre vai descansar no cemitério de Porte Sante, em Florença”, anunciou a fundação em seu nome num comunicado citado pelo jornal La Stampa.

O presidente da câmara de Florença, cidade natal do cineasta, Dario Nardella, precisou que Zeffirelli morreu hoje e qualificou-o como “um dos grandes homens da cultura mundial”.

O cineasta filmou, entre outros, “Romeu e Julieta” (1968), “La Traviata” (1982), “A Fera Amansada” (1967) e “Chá com Mussolini” (1999).

Zeffirelli entrou no cinema pela mão de Luchino Visconti, como assistente de realização nos filmes “A Tera Treme” (1947), “Belissima” (1951) e “Senso” (1952) e foi aí, afirmou mais tarde, que nasceu a sua paixão pela sétima arte, conjugada com um interesse por obras-primas da literatura inglesa e de grandes óperas.

O realizador,  que também dirigiu mais de trinta peças e óperas até 2012, nasceu em Florença a 12 de fevereiro de 1923, de um caso adúltero entre uma estilista e um comerciante de seda e lã.

Rejeitado por ambas as famílias, herdou o nome de uma ópera de Mozart, imaginado por uma prima do seu pai, que assumiu os seus cuidados após a morte da sua mãe quando ainda era criança.

Muito jovem, Franco Zeffirelli conheceu o teatro durante as férias de verão e aos nove anos foi seduzido pela ópera ao assistir a "Valquíria", de Wagner, em Florença.

Aos 13 anos, começou a montar espetáculos na paróquia e foi tendo aulas com Mary O'Neill, secretária particular do seu pai, que passou a apreciar os clássicos da literatura inglesa.

Senso

Formado em arquitetura, começou como um decorador de teatro e cinema antes de se tornar ator. O seu encontro com o cineasta Luchino Visconti selou o seu destino: tornou-se seu protegido e depois seu amante.

A sua relação com Visconti era explosiva e terminou de forma brutal, que Zeffirelli descreveu como muito dolorosa, mas que lançou a sua carreira artística.

Católico, homossexual e senador

"Luchino revelou-me o campo da criação, no palco e no ecrã. E mostrou-me como conceber um projeto e dar-lhe uma estrutura para o ambiente cultural correspondente", revelou.

No final dos anos 1950, Zeffirelli começou a sua carreira como diretor de ópera no Scala de Milão e no Metropolitan de Nova Iorque. Dirigiu Maria Callas em "La Traviata" em Dallas em 1959 e "Tosca" em Londres em 1964.

No cinema, adaptou "La Traviata" (1982) e "Otello" (1986) de Verdi.

Realizou a sua primeira longa-metragem, "Camping", em 1958 e o seu maior sucesso 10 anos depois com "Romeu e Julieta", que recebeu quatro nomeações aos Óscares, incluindo de Melhor Realizador e Melhor Filme.

No palco, como no ecrã, Franco Zeffirelli presta especial atenção ao guarda-roupa e cenários, o que fez o crítico Henry Chapier dizer que ele era o único "capaz de criar no cinema o equivalente aos frescos da Renascença".

As suas convicções religiosas levaram-no a lançar uma campanha contra "A Última Tentação de Cristo", de Martin Scorsese, apresentada em Veneza ao mesmo tempo que o seu "A Vida do Jovem Toscanini" em 1988, antes de voltar atrás.

Zeffirelli também se destacou ao se opor a projetos de reconhecimento dos casais homossexuais e ao ser um dos poucos artistas italianos a apoiar Silvio Berlusconi quando o bilionário entrou para a política no início dos anos 1990. Acabaria por ser senador na lista do magnata dos meios de comunicação de 1994 a 2001.

Chá com Mussolini

Depois de vários anos, regressou ao cinema com "Jane Eyre", adaptado do romance de Jane Austen (1996, com Charlotte Gainsbourg), "Chá com Mussolini" (2001), antes de casar suas paixões pelo cinema e pela ópera em "Callas Forever", onde Fanny Ardant interpretou a cantora icónica.

Perto de completar 100 anos, o cineasta italiano reconheceu em março de 2019, em entrevista ao Corriere della Sera, o peso dos anos. "A velhice é um fardo enorme, mas ainda estou a procurar ideias para filmar (...) e isso mantém-me ocupado".

Zeffirelli também confessou ter dois arrependimentos na sua vida como cineasta: "um filme sobre o Inferno de Dante", impossível de produzir por causa do custo dos efeitos especiais, e "um grande fresco sobre a vida e obra dos Medici, sobre a beleza, precisamente".

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