É já uma tradição anual do SAPO Mag: cinco perguntas, sempre iguais, para um painel de especialistas. Quem vai ser o grande vencedor e quem são os inevitáveis ausentes, sem esquecer este ano a discussão em redor da presença cada vez mais inquestionável da Netflix ou a polémica em redor da ausência de mulheres nomeadas na categoria de Melhor Realização. Os nossos convidados, todos ligados ao cinema pela profissão, não tiveram papas na língua e pouco ficou por discutir.

Mário Augusto, Rui Pedro Tendinha, Vítor Moura e Maria João Rosa, alguns dos jornalistas de cinema mais conhecidos do pequeno ecrã, e o multifacetado Filipe Melo (realizador, autor de BD, músico e devorador compulsivo de filmes), têm sido testemunhas atentas das mudanças operadas em Hollywood ano após ano e deixam aqui o seu testemunho sobre edição deste ano da grande festa dos Óscares.

Quem vai ser o grande vencedor dos Óscares?

Mário Augusto: Claramente, há um pré-vencedor, sem margem para dúvidas: o “1917”. Não tenho tanta certeza se eles querem dar o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realização ao mesmo filme, e assim sendo poderia ser galardoado Melhor Filme o “Era Uma Vez… em Hollywood”.

Maria João Rosa: Penso que o grande vencedor será "1917", que julgo ser o mais provável vencedor das estatuetas de Melhor Filme e Melhor Realização, para Sam Mendes. Em ambas as categorias, o filme arrecadou os respetivos prémios nos Globos de Ouro, nos Bafta e nos prémios das Producers e Directors Guilds, fazendo o pleno nos indicadores clássicos de vencedores para os Óscares. Na minha opinião, é sobretudo um prodígio técnico, tanto na parte da filmagem e trabalho de atores em plano sequência, como na pós-produção e realização. O Sam Mendes é um virtuoso da Sétima Arte e a Academia gosta disso.

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Rui Pedro Tendinha: O vencedor vai ser “1917”, mas era tão bom que não. Amava que houvesse golpe de teatro.

Vítor Moura: Nunca se sabe por antecipação, mas este ano a passadeira está estendida para “1917”. O drama de Sam Mendes sobre um episódio da Primeira Guerra Mundial vai entrar na festa dos Óscares com 10 nomeações, o que é sempre um número impressionante. Mais importante são os prémios que o filme ganhou, entretanto, nomeadamente o Globo de Ouro para Melhor Drama e os prémios dos Sindicatos dos Produtores e Realizadores (que costumam ser um indicador fiável para as escolhas mais aguardadas da Academia de Hollywood). É certo que nenhum dos protagonistas de “1917” está nomeado, mas o fulgor das imagens da guerra – refletido em várias categorias técnicas – pode determinar a vitória final dessa viagem no tempo, inspirada na experiência militar do avô de Sam Mendes, o sr. Albert Hubert Mendes, que tinha origens portuguesas.

Filipe Melo: Ora muito bem - se tiver de apostar dinheiro, aposto no "1917", mas porque acho que será o vencedor por consenso. Foi um ano fortíssimo, há filmes muito bons, diversos e originais entre os nomeados.

Qual o Óscar que querias mesmo ver entregue este ano?

Mário Augusto: O de Melhor Realização ao Sam Mendes. Foi inovador, crítico, arrojado com este filme de evocação das aventuras do avô na Primeira Guerra Mundial.

ÓSCARES 2020

  • São nove os títulos na corrida a Melhor Filme: "Joker" (11 nomeações), "1917", "Era Uma Vez em... Hollywood" e "O Irlandês" (dez nomeações), "Jojo Rabbit", "Mulherzinhas", "Marriage Story" e "Parasitas" (6) e "Le Mans '66: O Duelo" (4)
  • A 92ª cerimónia realiza-se a 9 de fevereiro no Dolby Theatre de Los Angeles, às 17 horas locais (uma da manhã em Portugal).
  • Pela segunda vez consecutiva, não haverá anfitrião.
  • Um filme fica elegível se for exibido num cinema comercial no condado de Los Angeles durante pelo menos sete dias e três sessões diárias, podendo ser lançado no primeiro dia também noutros meios, por exemplo em streaming.
  • Os Óscares honorários desta edição já foram entregues a 27 de outubro de 2019 aos realizadores David Lynch e Lina Wertmüller, e ao ator Wes Studi. O Prémio Humanitário Jean Hersholt foi para Geena Davis.
  • A categoria de Melhor Filme Estrangeiro foi rebatizada de Melhor Filme Internacional, designação considerada mais representativa, positiva e inclusiva, além de destacar a arte cinematográfica como universal. Estão nomeados "Parasitas" (Coreia do Sul), "Dor e Glória" (Espanha), "Os Miseráveis" (França), "Corpus Christi - A Redenção" (Polónia) e "Honeyland" (Macedónia do Norte).

Maria João Rosa: Acho uma pena que o "Dor e Glória", de Pedro Almodóvar, saia provavelmente da cerimónia sem um Óscar. Merecia ganhar o de Melhor Filme Internacional só por ser dos melhores filmes de Almodóvar dos últimos anos e por já terem passado 20 anos, desde que ganhou esse galardão com "Tudo Sobre a Minha Mãe". Almodóvar também merecia ter sido nomeado para Melhor Realização, mas não o foi... e dificilmente conseguirá derrotar o fenómeno "Parasitas" na categoria de Filme Internacional. Dito isto, este Óscar fica muito bem entregue (quase de certeza) a "Parasitas", filme que também gostaria que ganhasse o Óscar de Melhor Argumento Original, até porque a história é do mais original que há!

Rui Pedro Tendinha: Num mundo justo ganhava o “Mulherzinhas” em ex-aequo com “Parasitas”.

Vítor Moura: Se Joaquin Phoenix (“Joker”) ganhar o Óscar de Melhor Ator, direi que é absolutamente justo. Se Renée Zellweger (“Judy”) ou Charlize Theron (“Bombshell”) ganharem o Óscar de Melhor Atriz, terão o meu aplauso. Assim como Brad Pitt (“Era uma Vez… em Hollywood”) e Laura Dern (“Marriage Story”) com os Óscares dos Melhores Secundários. Mas, com todo o respeito por Sam Mendes e “1917” e por Todd Phillips e “Joker”, estou a torcer por Quentin Tarantino para os Óscares de Melhor Filme e Melhor Realização. Já é tempo da Academia de Hollywood o reconhecer para além dos argumentos que escreve (até hoje, só ganhou Óscares como argumentista de “Pulp Fiction” e “Django Libertado”). Parece mentira, mas é verdade.

Filipe Melo: É um daqueles anos em que, curiosamente, não há um Óscar que sinta que seja mais merecido que outro, acho que as atribuições vão passar por questões mais subjetivas. No entanto, há uma coisa que me parece óbvia: se o Joaquin Phoenix não ganha o Óscar, haverá um motim.

Que filme não está nomeado e gostavas que estivesse?

Mário Augusto: Vi por estes dias e fiquei arrasado com o “Diamante Bruto”, da Netflix… A história é uma montanha-russa de situações entre o trágico, o caótico e o drama.

Maria João Rosa: Há vários, mas destaco dois: "Rocketman", que devia pelo menos ter valido uma nomeação de Melhor Ator a Taron Egerton, tão impecável no papel de Elton John que até cantou ele próprio no filme. Considero, aliás, tanto o filme como a interpretação muito melhores que o comparável “Bohemian Rhapsody”, pelo qual Rami Malek não só esteve nomeado o ano passado, como ganhou mesmo o Óscar. Também gostaria que "Midsommar", de Ari Aster, tivesse tido algum reconhecimento da Academia. Penso que foi um dos melhores e mais originais filmes de 2019 e Florence Pugh tem nele uma prestação muito mais impressionante do que em "Mulherzinhas", pelo qual está nomeada.

Rui Pedro Tendinha: No mundo das "wishful thinkings" tenho outro ex-aequo: “Nós” e “Diamante Bruto”, dois filmes que não foram nomeados.

Vítor Moura: “Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias”. A curta-metragem animada de Regina Pessoa chegou à "shortlist" da categoria, mas acabou por ficar de fora. O facto de ter conquistado, entretanto, o Prémio Annie - o mais importante do cinema de animação - coloca-a entre os filmes incontornáveis do ano. Mesmo sem a nomeação para o Óscar, “Tio Tomás” é um ponto alto para a animação que se faz em Portugal e para a cineasta portuguesa que, desta vez, assina uma história inspirada em memórias de infância. O propósito, como ela contou no CINEBOX, foi prestar um tributo ao tio de quem gostava muito com a ideia de que “uma pessoa não precisa de fazer nada de extraordinário na vida para ser importante na vida de alguém”.

Filipe Melo: "Diamante Bruto". Acho que é o "Florida Project" deste ano e uma grande injustiça não estar nomeado nas categorias principais.

Com filmes nomeados em quase todas as categorias, incluindo animação e documentário, será este o ano da Netflix nos Óscares?

Mário Augusto: Não sei se será este ainda o ano para agarrar os prémios todos, mas para já é uma grande marca vencedora, a mais nomeada no conjunto dos filmes todos. Quando pensamos que, há dois anos, a Netflix era uma estranha nesse universo da celebração do cinema e da Academia, que o ano passado ganha e que este já é a mais nomeada… já sairá a ganhar muito, mesmo se não tiver Óscares.

Maria João Rosa: Já ter conseguido ser o estúdio com mais nomeações este ano, 24 no total (mais que a Disney), é uma vitória face à resistência inicial da Academia à Netflix. É mesmo um feito histórico e uma mudança de paradigma: pela primeira vez o estúdio mais nomeado do ano é uma plataforma de streaming. Só por aí, já é o ano da Netflix nos Óscares. Na grande noite deve arrecadar pelo menos dois galardões, Melhor Atriz Secundária para Laura Dern e provelmente Melhor Filme de Animação para "Klaus", filme que (por curiosidade) tem portugueses na equipa.

Rui Pedro Tendinha: Ano da Netflix? Infelizmente, não. Infelizmente porque temo que, depois de dois anos a não vencer na categoria de Melhor Filme, Ted Sarandos desista da qualidade e passe a apostar em produtos como “Six Underground” ou coisa do género.

Vítor Moura: Só saberemos no domingo (9), mas, à partida, uma coisa é certa. Este é o ano em que a Netflix ultrapassou os estúdios tradicionais em número de nomeações (tem 24 contra 23 da Disney e 20 da Sony). A vantagem, pequena mas inédita, é um sinal de como a indústria do entretenimento está a mudar com o negócio do streaming. E é mais uma evidência de como os "players" desse negócio (Netflix à cabeça) estão a ganhar notoriedade na contratação de atores e realizadores de primeira linha para projetos originais. “O Irlandês” é um dos exemplos mais ambiciosos dessa estratégia. Mesmo que o filme de Martin Scorsese não confirme nenhuma das 10 nomeações para os Óscares, fica claro de que a Academia de Hollywood – ao contrário de alguns festivais – não discrimina filmes produzidos por empresas do streaming. E ainda bem, porque esses filmes também são Cinema; em alguns casos, do melhor que temos vistos nos últimos anos.

Filipe Melo: Não sei se será a nível da premiação, mas a Netflix trouxe-nos alguns dos melhores filmes do ano e só tenho de lhes agradecer. Tenho pena de não ter visto em grande ecrã, mas a culpa é minha e não deles, porque ainda não consegui juntar dinheiro para um projetor decente.

É injusto não haver este ano qualquer mulher nas nomeações para Melhor Realização?

Greta Gerwig

Mário Augusto: Acho que devem ser representadas com mais importância, mas estabelecer cotas… aborrece-me. Agora poderiam estar mais presentes?! Talvez, porque não, mas para mim realizadores e realizadoras são artistas e o que conta são as obras deles.

Maria João Rosa: Não sou apologista das quotas por si só, mas neste caso penso que estamos perante um fenómeno de ciclo vicioso, que torna muito difícil a nomeação de mulheres nessa categoria (que em 92 anos de existência apenas nomeou cinco mulheres). Ora, como quem decide os nomeados para Melhor Realização é o ramo de membros da Academia constituído pelos realizadores (que são na esmagadora maioria homens e já de alguma idade), é fácil perceber como o ciclo vicioso se processa. Penso que Greta Gerwig devia ter sido nomeada na categoria de realização, já que "Mulherzinhas" com as seis nomeações que tem - inclusive para Melhor Filme - é, claramente, considerado pela Academia um dos melhores filmes do ano. Portanto, faria todo o sentido. Mesmo assim, este ano há um número recorde de mulheres nomeadas nas várias categorias (62 no total) o que parece indicar sinais de mudança.

Rui Pedro Tendinha: A injustiça é gritante quando havia a Greta Gerwig na parada. Estranha também a forma como “A Despedida” acabou por ficar de fora. Mas é tempo de Hollywood apostar em formar mais "Sofia Coppolas", "Kelly Reichardts" ou "Kathyrn Bigelows"...

Vítor Moura: A discussão não é de agora e suspeito que tão cedo não vai terminar. Sim, é injusto que algumas realizadoras tenham sido ignoradas nas nomeações para o Óscar da categoria. Nomeadamente: Greta Gerwig com “Mulherzinhas” e Lulu Wang com “A Despedida”. A grande questão de hoje, e sempre, é que as escolhas da Academia são subjetivas e, portanto, questionáveis. Há um preconceito instalado contra as mulheres realizadoras? Os números parecem indicar que sim, mas não serão eles um reflexo da própria indústria do Cinema onde os homens (ainda) têm mais e melhores oportunidades de trabalho que as mulheres? Preferia que tanto no acesso ao trabalho como na avaliação desse trabalho o foco estivesse no mérito de quem realiza os filmes, independentemente do género e, já agora, à margem de qualquer sistema de cotas.

Filipe Melo: Claro que é, mas não é um problema deste ano - é um problema geral. Para quem acha que não faz sentido falar de discriminação, coloco um desafio. Peçam a pessoas que conheçam para vos darem o nome de cinco realizadoras - mulheres - e façam o mesmo com realizadores - homens. Vejam a diferença do tempo de resposta e a taxa de sucesso. Dá que pensar, não é?

O SAPO Mag vai acompanhar ao minuto todos os acontecimentos da noite, da red carpet à cerimónia. Fique acordado connosco pela madrugada dentro.

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Créditos, da esquerda para a direita: em cima, Rui Pedro Tendinha e Mário Augusto [foto: RTP Comunicação]; em baixo, Filipe Melo [foto: Vitorino Coragem] e Vítor Moura [foto: Cinebox/TVI24]. Ao centro: Maria João Rosa [foto: Rui Faísca].

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