Para a generalidade dos animadores norte-americanos, “Pinóquio”, estreado há precisamente 80 anos, é não só o melhor filme da Disney como também o melhor filme de animação da história do cinema.

Foi em 1883 que Carlo Collodi escreveu o romance adaptado de forma muito livre pela Disney e que estreou a 23 de fevereiro de 1940, apenas três anos após a primeira longa-metragem de animação do estúdio, “Branca de Neve e os Sete Anões”.

Faz parte de um período de ouro para o género: em 1940, a Disney estreou ainda "Fantasia" e seguiram-se "Dumbo" em 1941 e "Bambi" em 1942, antes de se fazerem sentir os efeitos do declínio das bilheteiras e o ataque japonês a Pearl Harbor e a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial terem desviado muitos dos animadores para as Forças Armadas.

A partir daí, raras vezes se voltou a atingir o mesmo cume artístico, apesar da imensa qualidade de animações, como "A Gata Borralheira" (1950), "Alice no País das Maravilhas" (1951), "Peter Pan" (1953) ou”Os 101 Dálmatas” (1960), e à morte de Walt Disney, em 1966, seguiu-se um longo período de lento declínio de que o estúdio só começou a recuperar com "A Pequena Sereia" (1989) e "A Bela e o Monstro" (1991).

Prestando grande atenção aos detalhes e ao realismo, "Pinóquio" foi considerado e permanece um marco de sofisticação narrativa, detalhe visual e expressividade inovadora de animação que quase nenhum outro filme conseguiu igualar.

A história do boneco de madeira que sonha tornar-se um menino de verdade e a quem cresce o nariz sempre que diz uma mentira, era razoavelmente mais suave que o romance de base.

Ainda assim, deixou algumas das cenas mais assustadoras da história do cinema, desde a transformação do rapaz em burro à perseguição pela baleia gigante, além de amplificar o papel do Grilo Falante, que se tornou uma das personagens maiores do estúdio.

"Pinóquio" é um prodígio de animação e inovou cena a cena na representação realista dos mais variados efeitos, e beneficiou ainda de uma banda sonora de exceção, que arranca logo com a oscarizada canção “When you Wish Upon a Star”, interpretada pelo inimitável Cliff Edwards (a voz do Grilo Falante), que se tornou o emblema da Disney, num plano de um céu estrelado, que incendiou o imaginário de gerações de crianças, incluindo a de Steven Spielberg.

“Pinóquio” foi um filme caríssimo e levaria tempo a recuperar a receita nas bilheteiras, uma vez que estreou com a Europa já envolvida na Segunda Guerra Mundial.

Com o passar dos anos, tornou-se um dos maiores sucessos de sempre da Disney, um dos mais míticos e populares filmes da história do cinema, dos poucos a ter o tão ambicionado score de 100% no site agregador de críticas Rotten Tomatoes.

Houve outras versões do romance, tanto em animação como com atores, incluindo um telefilme com o ator Mickey Rooney em 1957 e um filme de Roberto Benigni em 2002, nenhuma a aproximar-se da criatividade e impacto emocional do filme da Disney.

Isso é tão evidente que continua a inspirar cineastas: dentro de dias, o Festival de Berlim, irá ver um novo filme de Matteo Garrone, mais conhecido por filmes brutais como "Gomorra" e "Dogman".

Também Guillermo del Toro está a desenvolver para a Netflix uma animação musical 3D "stop-motion" tendo por base uma versão mais forte da história.

“Não houve nenhum tipo de arte na minha vida e na minha carreira que me tivesse influenciado tanto como a animação, e nunca tive uma ligação pessoal com nenhuma personagem na história tal como tenho com Pinóquio", explicou na altura em que foi anunciado o projeto.

E depois, há a própria Disney, que desde o sucesso de "Alice no País das Maravilhas", em 2010, avançou a todo o gás com projetos em imagem real inspirados pelos seus clássicos da animação, como "O Livro da Selva", "A Bela e o Monstro", "Dumbo", "Aladdin", "O Rei Leão" e o ainda inédito "Mulan".

Após alguma relutância inicial, estão em fase de desenvolvimento precisamente as novas versões dos emblemáticos "A Branca de Neve", "Bambi" e "Pinóquio".

Será Robert Zemeckis que tentará voltar a dar humanidade à história da marioneta que desejava "ser um menino de verdade" cujas imagens mais indeléveis estão agora a festejar 80 anos...

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