Pennywise, o palhaço assassino que espreita nos esgotos e se alimenta do pânico das crianças, talvez seja a criação mais maligna que já surgiu da mente de Stephen King.

Mas Andy Muschietti [Andrés Muschietti], o realizador argentino da adaptação cinematográfica de "IT" em dois filmes, , em seus dois capítulos, decidiu causar controvérsia ao afirmar que a macabra criação de King tem muito em comum com uma figura da vida real: o presidente Donald Trump.

"Ele faz exatamente a mesma coisa que o palhaço", diz à agência AFP.

"O palhaço está sempre a tentar dividir 'os falhados', a colocá-los uns contra os outros e a enfraquecê-los", afirma, referindo-se o grupo de pré-adolescentes inadaptados que são os heróis de "IT" e formam o “Clube dos Falhados”.

"É assim que ele vence, tenta dominá-los e destruí-los", reforça.

Traçar paralelismos entre este ícone do terror e o inquilino da Casa Branca provavelmente surpreenderá muita gente.

Mas para além do palhaço assassino, o romance de King era já uma exploração das entranhas obscuras dos Estados Unidos, acredita Muschietti, abordando temas sinistros mas tragicamente reais como a violência doméstica e o incesto.

A sequela "IT: Capítulo Dois", que estreia esta semana em Portugal, um dia antes dos EUA, percorre as partes finais do romance, nas quais as crianças, que agora cresceram e são bem-sucedidas fora da sua pequena cidade, têm de regressar para enfrentar novamente Pennywise.

O filme recria uma famosa cena do romance na qual um jovem gay sofre um ataque homofóbico selvagem de um gangue, que se baseou num incidente da vida real em Bangor, uma cidade do estado de Maine [nordeste dos EUA], onde vive King.

Uma popular adaptação do romance como minissérie de TV em 1990 tinha-a omitido, mas Muschietti considerou que a cena era crucial para fazer "um filme que está conectado com os tempos que vivemos".

"Vivemos numa cultura de medo, com líderes que tentam dividir as pessoas, para nos controlar, dominar e fazer com que nos confrontemos entre nós", afirma o realizador.

"Muito respeitoso"

King, aberto crítico de Trump, não pôde pretender fazer a analogia de Muschietti em 1986, o ano de publicação de "IT", embora tenha criado para o seu romance anterior, "The Dead Zone" (1979), o personagem de um "outsider" populista destinado a ocupar a presidência dos Estados Unidos.

Muschietti conta que o mestre do terror foi um apoio na orientação das adaptações cinematográficas e até faz uma participação na sequela.

"É muito respeitoso com as adaptações", disse o cineasta, que mostrou o argumento a King antes da rodagem: "Na verdade fui eu que me aproximei dele".

A experiência esteve longe de se parecer com a de Stanley Kubrick, cuja adaptação do romance "The Shining" em 1980 lhe rendeu críticas de King por se afastar do enredo original.

"Sentiu-se insultado, mas mudou muito desde então", pensa Muschietti.

Maior, mais longo e mais rico

Muschietti disse que a sua própria forma de trabalhar mudou muito desde o seu bem-sucedido filme de 2013 "Mamã", que tal como "IT - Capítulo Dois", foi produzido pela sua irmã Barbara e protagonizado por Jessica Chastain.

"Aprendi a relaxar um pouco mais e a desfrutar do processo, que é uma coisa que não fiz no meu primeiro filme, compreensivelmente, suponho", diz.

Em 2017, "IT" arrecadou 700 milhões de dólares, tornando-se o filme de terror que mais dinheiro fez nas bilheteiras de sempre (sem contar com a inflação, que faz de "O Exorcista" o campeão absoluto).

Segundo Muschietti, a sequela contou com um orçamento entre 60 e 70 milhões, o dobro do original. E alguns prognósticos acreditam que as receitas de bilheteira podem atingir os mil milhões.

"Não quero pensar muito nisso, prefiro ter expectativas baixas para começar", disse, antes de admitir que a duração de quase três horas do filme é mais ambiciosa.

"É maior, é uma história mais longa e mais rica, é um pouco mais intensa em cada cena... é como uma punhalada no coração", conclui.

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