A brilhar como a madame Maeve Millay na aclamada série "Westworld" e conhecida por filmes como "Missão Impossível II" (2000), o vencedor dos Óscares "Colisão" (2004), "Em Busca da Felicidade" (2006), "RocknRolla: A Quadrilha" (2008) ou "Han Solo: Uma História de Star Wars" (2018), Thandie Newton deu uma longa e muito franca entrevista à Vulture que está a causar grande impacto em Hollywood.

Entre vários temas, a atriz conta pormenores estarrecedores sobre os conhecidos abusos sexuais a partir dos 16 anos que sofreu às mãos de John Duigan, o realizador de "A Idade das Emoções" (1991), o seu primeiro filme, que desencadearam anos de depressão e insegurança.

Mas as partes mais faladas são as do choque ao descobrir que uma cena de "Colisão" era sexualmente mais explícita do que estava descrita no argumento e a sua relação complicada com o próprio filme; o racismo casual que a levou a não entrar ao lado de Drew Barrymore e Cameron Diaz em "Os Anjos de Charlie"; e a intensidade assustadora de Tom Cruise durante a rodagem de "Missão Impossível II" (2000).

Apesar do impacto que as revelações estão a ter desde a publicação da entrevista na terça-feira (8), o pior ainda pode estar para vir: Thandie Newton diz ter um "livro negro" que será publicado quando estiver "prestes a morrer" com "tudo" o que lhe aconteceu durante a carreira.

"Colisão" é um "filme complicado"

A atriz recordou o choque e como chorou ao perceber como seria muito mais explícita do que estava descrita no argumento a cena de "Colisão" (2004) em que a sua personagem é abusada sexualmente pelo polícia branco interpretado por Matt Dillon e por se ver envolvida no que julgava ser uma "insinuação" racialmente polémica. Só anos mais tarde, acrescentou, é que descobriu que isso era mesmo um "fenómeno" real.

Admite que se trata de um filme "complicado" em que ela acaba por ser um "instrumento" numa história de redenção da personagem de Matt Dillon.

Concorda ainda com os que defendem que se esforça por preservar a noção do "liberal branco" defensor da justiça social: "O filme era inteligente e assertivo, mas essencialmente parou o julgamento. Neutralizou a revolta muito real que sentem os afro-americanos [em relação à violência policial]".

O racismo casual de Amy Pascal

A passagem mais polémica da entrevista anda à volta da primeira adaptação ao cinema de "Os Anjos de Charlie" (2000) e de um encontro com Amy Pascal para o papel que acabaria por ser de Lucy Liu.

A então CEO do estúdio Columbia Pictures comentou que se fosse escolhida, teriam de alterar o argumento para tornar a sua personagem "credível" pois era descrita como sendo licenciada e culta.

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Quando Thandie Newton indicou que ela própria tinha frequentado a Universidade de Cambridge, Pascal respondeu "Sim, mas tu és diferente" e sugeriu que talvez criassem uma cena em que estivesse "num bar e subisse a uma mesa e começasse a mexer sensualmente o traseiro".

"Essencialmente, ela estava a reproduzir aqueles estereótipos de como ser mais convincente como personagem negra. A tudo o que ela dizia eu respondia 'Não, eu não faria isso' e ela 'Sim, mas tu és diferente'", recordou.

Forçada a sair da Sony Pictures em 2015 após o escândalo do cibertaque à Sony ter revelado emails embaraçosos, incluindo especulações jocosas sobre a preferência de Barack Obama por filmes com por atores negros como "Django Libertado" e "Penso como Um Homem", Amy Pascal disse ao Vulture que estava "horrorizada" com a descrição do encontro e apesar de levar as afirmações de Thandie Newton a sério, não se recordava de nada.

O "stress" de Tom Cruise

A primeira oportunidade a sério em Hollywood foi quando a amiga e antiga colega de "A Idade das Emoções" Nicole Kidman sugeriu o seu nome ao então marido Tom Cruise para parceira em "Missão Impossível II" (2000).

Thandie Newton revela que nunca foi convidada a regressar nas sequelas como Nyah Nordoff-Hall e houve um momento durante a rodagem do filme de John Woo que foi um "pesadelo".

"Estava com tanto medo do Tom. Ele era uma pessoa muito dominadora. Ele esforça-se ao máximo por ser simpático. Mas a pressão. Carrega com muita coisa. E acho que tem a sensação de que só ele pode fazer tudo da melhor forma possível", comentou.

O pior dessa pressão ter-se-á manifestado durante a rodagem de uma cena de discussão à noite numa varanda em que Tom Cruise claramente não estava satisfeito com a interpretação da parceira e ficou "tão frustrado" que quis trocar de personagens para lhe mostrar o que queria.

"Filmámos a cena toda com eu a ser ele — porque, acredite, nessa altura já sabia os diálogos de cor — e ele a fazer de mim. E foi o mais inútil ... não consigo pensar em nada menos revelador. Apenas me empurrou ainda mais para uma posição de terror e insegurança. Foi uma verdadeira vergonha. E abençoado seja ele. E estou a falar a sério, porque ele estava a dar o seu melhor", recordou.

A atriz telefonou mais tarde ao realizador Jonathan Demme, com quem trabalhara em "Beloved" (1998), a descrever a noite como um "pesadelo" em que ela era a grande culpada.

Mas o vencedor dos Óscares por "O Silêncio dos Inocentes" (1991) admoestou-a "gentilmente" por não ter confiança nela própria.

Mais tarde, Tom Cruise telefonou, mas em vez do pedido de desculpa que julgava que ia ouvir, ficou apenas a saber que iam voltar a filmar a cena na semana a seguir.

A repetição foi muito diferente "porque percebi o que ele queria. Ele apenas queria que fosse uma cabra dominadora. E fiz o melhor que podia. Não é a melhor forma de arrancar o melhor trabalho de uma pessoa".

Mas Thandie Newton diz que teve "tempos extraordinários" a fazer o filme e Tom Cruise não foi "horrível" como colega: "Ele estava apenas muito stressado".

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