A Noite Sempre Chega
A HISTÓRIA: Baseado na obra best-seller de Willy Vlautin, acompanha Lynette, uma mulher que arrisca tudo para conseguir a casa que representa um futuro para a sua família. Numa odisseia perigosa durante uma noite, Lynette é obrigada a confrontar o seu passado sombrio para se conseguir libertar de uma vez por todas.
"A Noite Sempre Chega": na Netflix desde 15 de agosto.
Crítica: Manuel São Bento
(Aprovado no Rotten Tomatoes. Membro de associações como OFCS, IFSC, OFTA. Veja mais no portfolio).
Quando “A Noite Sempre Chega” abre com noticiários e programas de rádio a martelar a crise da habitação — salários insuficientes para pagar renda e despesas básicas, despejos iminentes —, a promessa é clara: um mergulho direto numa realidade que empurra pessoas para o limite. Enquanto a protagonista sai para trabalhar, preocupa-se com a mãe e com a necessidade de estarem no sítio certo, à hora certa, com o dinheiro, para evitar o próprio despejo. Realizado por Benjamin Caron (“Andor”) a partir de um argumento de Sarah Conradt (“50 States of Fright”), adaptado do livro de Willy Vlautin, a história segue Lynette (Vanessa Kirby, “Pieces of a Woman”), que vive com a mãe, Doreen (Jennifer Jason Leigh, “Os Oito Odiados”), e o irmão, Kenny (Zack Gottsagen, “O Falcão Manteiga de Amendoim”), um trio prestes a ficar sem casa. A missão, brutal na sua simplicidade: arranjar 25 mil dólares numa única noite.
Em teoria, a premissa podia resultar num thriller alucinante ou num retrato social devastador. Na prática, “A Noite Sempre Chega” hesita e perde-se entre as duas vias. É tudo demasiado explícito, sem espaço para subtexto: as personagens explicam traumas passados e dificuldades do presente como quem lê um relatório, anulando qualquer descoberta emocional por parte dos espectadores. O plano da noite — juntar dinheiro a qualquer custo, por vias cada vez menos legais — é repetido e sublinhado até à exaustão, como se a obra não confiasse que o público percebesse o que está em jogo.

Ainda assim, existe um núcleo temático forte nascido do desespero: quando tudo o que é legal, amável e decente falha, as pessoas transformam-se. Lynette sobe e desce escadas morais a um ritmo vertiginoso, e Kirby destaca-se — como seria de esperar — ao dar gravidade a uma protagonista imperfeita, que comete crimes para proteger os seus. É um arco assumidamente cinzento, e a atriz encontra humanidade nos interstícios dessa escuridão: um olhar que vacila antes de atravessar a linha, um gesto que denuncia culpa quando a urgência cala a consciência. Se o filme tem uma âncora, é Kirby.
O problema é que, ao redor, tudo parece desorganizado. “A Noite Sempre Chega” não sabe se quer ser comentário social ou thriller intenso. O enredo principal comporta-se mais como um mecanismo de suspense do que como uma jornada emocional. Quando surgem cenas destinadas a dar profundidade ao passado de Lynette, parecem ideias soltas em vez de narrativamente coerentes. O tom mantém-se sombrio do princípio ao fim, mas o posicionamento narrativo dessas vinhetas faz com que pareçam deslocadas, mais calculadas para aumentar a seriedade da situação do que para iluminar a personagem.

A relação entre Lynette e Doreen, interpretada com a habitual precisão por Leigh, é o exemplo acabado desta fragilidade. É uma linha secundária semi-desenvolvida: percebe-se a tentativa de trabalhar a falta de comunicação entre mãe e filha, mas as cenas surgem mais como tese do que como experiência vivida. Falta conflito que evolua, sobra a sensação de que a ideia estava lá e ficou por desenvolver.
“A Noite Sempre Chega” também cai num ciclo repetitivo: Lynette precisa de dinheiro; pede ajuda; essa ajuda implica um crime — cometido pela própria ou por terceiros —; vêm as consequências, do físico ao psicológico; e, no fim, continuamos quase no mesmo sítio. A narrativa parece jogar ao “mais um nível” até não dar para mais, mas sem progressão dramática proporcional. A fotografia escura e a ausência de qualquer humor reforçam o sufoco — tecnicamente há coesão na atmosfera —, só que a estagnação estrutural reduz o impacto. E, o mais frustrante, é que cedo adivinhamos que tudo tenderá a ser “em vão” de alguma forma: quando o desfecho chega, é óbvio e, portanto, menos sentido — não há catarse, só sublinhado.
Nem tudo é negativo. Para lá de Kirby, Leigh encontra subtilezas numa mãe às voltas com ressentimentos e fragilidades, mesmo quando o argumento não lhe dá espaço para florir; e Gottsagen volta a provar, com naturalidade e presença, aquilo que devia ser óbvio: atores com síndrome de Down podem — e devem — ocupar papéis complexos, sem paternalismo. Tecnicamente, a composição da noite é eficaz: a imagem carregada, o som que aperta, a cidade como labirinto emocional. Existe intenção e textura. Falta apenas foco narrativo.

Enquanto comentário social, “A Noite Sempre Chega” levanta bandeiras justas — precariedade, burocracias desumanas, famílias à deriva perante um sistema que empurra para escolhas impensáveis —, mas fá-lo de modo demasiado literal. Em vez de confiar na ambiguidade das situações para nos envolver e indignar, explica-nos o que sentir e porquê. A mensagem passa, sem dúvida; o cinema, esse, dilui-se no excesso de enunciado.
Conclusão
“A Noite Sempre Chega” fica aquém da ambição. Existe uma história potente aqui — a da erosão moral provocada por sistemas que falham sempre os mesmos —, mas a obra não encontra a forma mais impactante de a contar. A atmosfera e as interpretações elevam o material, sendo que Kirby, em particular, carrega o peso do projeto com uma entrega que merecia um guião mais afinado. Contudo, entre a redundância, a falta de subtileza e a indecisão entre sátira amarga e thriller tenso, a experiência resvala para o frustrante e o sublinhado. Quando a noite termina, sobra a sensação de que muito barulho deu em pouco significado.
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