"Eu, Tonya" é um "mockumentary", uma comédia negra que vira "thriller white trash", uma biografia ao estilo Martin Scorsese que desliza pela pista de gelo. Ao som de uma vibrante banda sonora (Laura Branigan, Dire Straits, Cliff Richard, entre outros) espalha-se várias vezes no chão, levantando-se sempre com resiliência e nova forma, até nos mostrar o famoso salto axel de Tonya Harding, que pôs a patinadora norte-americana nas bocas do mundo.

Filme sensação de Craig Gillespie, com Margot Robbie no papel principal, "Eu, Tonya" explora a vida da patinadora, a sua relação de humilhação e violência com a mãe (interpretação diabólica de Allison Janey), e a influência do marido Jeff Gillooly (Sebastian Stan), que levou a um dos maiores escândalos desportivos dos anos 90: a rival de Tonya, Nancy Kerrigan, foi agredida à saída de um treino para não poder comparecer nos Jogos Olímpicos de 94.

“E a culpa é minha ?”, pergunta Tonya ao longo do filme, condescendendo sobre si mesmo, desligando-se de responsabilidades. Pois, não sabemos.

Quem orquestrou o plano de agredir Nancy? Tonya sabia mais do que afirmava?

O realizador e o argumentista Steven Rogers não respondem, mas assumem, que toda a informação é baseada em entrevistas verídicas e contraditórias de Tonya e de Jeff.

O que torna tudo mais difícil, pois chegamos a rir de forma constrangedora, a algumas cenas de violência doméstica. Bem como da imbecilidade do plano de Jeff e do seu parceiro ainda mais idiota, Shawn Eckhardt, que acreditava ser um mestre em espionagem e terrorismo. E é, supostamente, o arquiteto de toda a trama.

A história é de tal forma absurda que a subjectividade inspira a criarmos a nossa verdade, quando os atores quebram a quarta parede, virando-se para nós, dando-nos dicas sobre a sua perspetiva.

“Vocês, espectadores, também são culpados”, diz a nossa anti-heroína, partilhando a mesma ideia de outra cena, onde vemos os jornalistas abandonarem as imediações da casa do marido, enquanto na televisão passam as primeiras imagens do caso O.J. Simpson.

Intercalando o escândalo com os momentos de glória, Gillespie tem em Margot Robbie uma excelente intérprete da miúda renegada que queria ser amada pelos seus feitos e capacidade. Não pela marca "redneck" que trazia consigo e tanto atrito criou com os juízes das provas.

Para tal, Gillespie filma este "biopic" como Scorsese: mesmo nos bailados (onde, em alguns movimentos, o rosto de Robbie foi sobreposto a duas patinadoras), a câmara é agitada e rápida, sendo interrompida por sequências frenéticas de farra e violência.

A semelhança de estilo culmina até numa cena ao espelho, onde Margot Robbie/Tonya Harding recompõe-se como Jake La Motta, não sabendo até então que iria mesmo acabar a sua carreira como uma "Raging Bull" (Tonya tornar-se-ia pugilista entre 2003 e 2004.)

Com nervo e fúria, "Eu, Tonya" é a versão caústica dos "biopics" onde Margot Robbie e Allison Janey são eletrizantes, pintando a vida de Tonya Harding como a lutadora da patinagem.

Ou não fosse o filme terminar com uma cuspidela de sangue no chão.

"Eu, Tonya": nos cinemas a 22 de fevereiro.

Crítica: Daniel Antero
Saiba mais no site do Cinemic.

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