A HISTÓRIA: Billy Wenan, um menino rico e mimado de 12 anos, mora com a avó doente e anseia pela atenção do seu pai ausente. Governando a casa com mão de ferro, não revela qualquer remorso quando é cruel para com os empregados. Na manhã de Natal, depois de encontrar um pedaço de carvão na sua meia, Billy decide contratar um assassino, conhecido por Magricela (Walton Goggins), para matar o Pai Natal.

O Pai Natal, também conhecido por Chris Cringle (Mel Gibson), está em plena crise financeira. O número crescente de crianças mal comportadas levou a uma redução do seu subsídio governamental, deixando-o abaixo do seu orçamento atual. Juntamente com a sua esposa, Ruth (Marianne Jean-Baptiste), lutam para manter a oficina aberta e os elfos empregados...

"Miss": nos cinemas a 7 de janeiro.


Crítica: Daniel Antero

Rosto árido com olhos melancólicos. Mãos calejadas e terra debaixo das unhas. Veste casaco de cabedal vermelho escuro e guia uma carrinha Ford de caixa aberta, algures pelas ruas de North Peak no Canadá. Este é Chris Cringle (Mel Gibson), um homem com ar severo, algo deprimido, que passa o seu tempo livre a esmurrar um saco de boxe ou a disparar contra latas no seu quintal. Infelizmente, o seu negócio não vai bem, as dificuldades financeiras agudizam-se.

Mas Chris tem um dom. Quando olha para alguém, ele sabe tudo sobre essa pessoa - nome, idade, família... e todos os brinquedos que lhe enviou durante a quadra festiva. Porque Chris é o Pai Natal. Sim, no novo filme dos irmãos Nelms, Mel Gibson é o Pai Natal. Ou “Fatman”.

Em “Missão: Vingança”, como foi apelidado na versão portuguesa, este São Nicolau está frustrado com a vida, longe do seu contagiante espírito natalício, alheio ao facto de que é o alvo de um assassino a soldo (Walton Goggins), contratado por um garoto (Chance Hurstfield) amuado por ter recebido uma pedra de carvão no lugar de um presente. E a sua raiva é tal, que o pirralho mimado quer mesmo a cabeça decepada do Pai Natal!

Esta premissa conivente com o ano de 2020 que passou até é divertida e parece prever uma entrada de relevo no espólio de Pais Natais alternativos que o cinema nos trouxe, como a iteração rock n’ roll efusiva de Kurt Russel para a Netflix em “Crónicas de Natal”, ou Billy Bob Thorton em “Bad Santa”.

Aqui também temos elfos, altamente zelosos e trabalhadores, que parecem saídos de uma fábrica de montagem da Primeira Guerra Mundial; uma esposa adorável, Ruth (Marianne Jean-Baptiste), que faz os melhores doces de Natal; todos prontos para ajudar o bonacheirão barrigudo a lidar com o mundo em decadência, problemas económicos, e a sua própria idoneidade moral. E a enfrentar o vilão assassino, que tem a panca de recolher todos os presentes que conseguir, ele que em miúdo, só recebera pontas de cigarro na pele e um cheiro nauseabundo a álcool e mentol.

“Missão: Vingança” podia ser uma sátira com "twist", podia ser um sujo, sangrento mundo de fantasia. Mas não é. É um chorrilho de ideias dissonantes que nunca se enleiam, baralhando-nos as expectativas, pois não conseguimos situar esta história entre um “Bad Santa” ou o filme de culto “O Fatal Silêncio da Noite”, de 1984. Não sabemos se devemos rir com o humor seco ou tentar vibrar com o andamento ao ralenti musculado que evoca os filmes de S. Craig Zahler (como "Na Sombra da Lei", com o mesmo Mel Gibson), assumindo que estamos a ver um filme de ação que não é mais do que um "shoot em up" cansado pelo excesso de açúcar.

Mesmo quando entendemos que os realizadores e argumentistas Eshom Nelms e Iam Nelms queriam construir aqui um híbrido para se tornar obra de culto, vemos que a adequação do mito do Pai Natal às preocupações da realidade é descartada para segundo plano, dando lugar ao inevitável duelo final à boa moda do velho oeste.

Assim, sem gozo ou espírito traiçoeiro por parte dos realizadores, "Missão: Vingança" é demasiado honesto na sua intenção e uma desilusão para a nossa imaginação.

Ah! E o Pai Natal faz um acordo com o exército norte-americano para construir peças para aviões a jato. O que é que isso interessa? Mais alvos para o assassino abater.

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