A HISTÓRIA: A próxima aventura da Mulher-Maravilha avança para os anos 80 onde vai ter de enfrentar dois novos inimigos: Max Lord e The Cheetah.

"Mulher-Maravilha 1984": nos cinemas a 16 de dezembro.


Crítica: Hugo Gomes

Patty Jenkins não se tornou, de forma alguma, na primeira mulher a dirigir uma variação, no agora muito vincado, subgénero de super-heróis, mas foi a primeira realizadora a ter ao seu comando uma produção com um orçamento avaliado acima dos 100 milhões de dólares.

O resultado foi um “pequeno” fenómeno chamado “Mulher-Maravilha” (2017), que suscitou um interesse pela voz feminina nestes projetos oleados e que resgatou a DC Comics e o seu desequilibrado universo cinematográfico partilhado da estética plastificada de Zack Snyder em "Homem de Aço" (2013) e "Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça" (2016).

Numa autêntica invocação do espírito de Edgar Rice Burroughs (o autor da série literária "Tarzan" e "John Carter"), Gal Gadot foi também determinante, convertendo-se em algo mais do que uma "pin-up": o símbolo de uma emancipação feminina alicerçada ao fervoroso capitalismo dos grandes estúdios de Hollywood.

"Mulher-Maravilha 1984": um salto até aos anos 80, um regresso do passado e vilões de peso. 2020 termina com um blockbuster no cinema
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Nas bilheteiras de todo o Mundo, o filme gerou milhões de dólares, mais concretamente 800, e como é habitual, nestas situações funciona a regra do cifrão: três anos, uma pandemia e vários adiamentos depois chega a sequela onde, com mais rédea solta, a realizadora aposta numa continuação de excessos e, como se percebe pelo título mas não só, num filme fora do seu tempo.

A evocação aqui é mais do que nostálgica (mesmo que este “Mulher-Maravilha 1984” decorra no auge da década de 80), trata-se de algo empírico: o Mundo não é o mesmo que há sensivelmente um ano e a pandemia (com todos os seus “anexos”) conduziu-nos para um misto de sensibilidade e de ceticismo com certas utopias fabricadas por Hollywood.

Assim sendo, a nova aventura de Gadot com as vestes (ou armadura) de Diana Prince (a.k.a Mulher Maravilha), é um aconchego emocional lá para os lados da lamechice pegada e dos discurso ultra-moralistas de boas intenções a soar a propaganda samaritana. E este é um risco que Patty Jenkins claramente assume de peito aberto, seja pela ingenuidade que trespassa na história ou as vibrações "camp" que podem provocar risos ou embaraços num espectador mais habituado ao realismo ou aos seus simulacros.

Com esse espírito, “Mulher-Maravilha 1984” faz recordar os sabores da escapista série protagonizada por Lynda Carter durante os anos 1970, prosseguindo num desmiolado e despreocupado exercício de ação a custo de milhões e com imaginação para alguns devaneios… a prestações.

Enquanto o filme de 2017 era arriscado, desde logo pela sua existência, a sua sequela faz apostas em segurança e para isso dá espaço ao seu coração, mais acalorado e por vezes… exageradamente acalorado. O resultado é desequilibrado, com dificuldades em dosear os elementos (quer e não quer ser levado a sério ao mesmo tempo), mas convém dizer que este regressado "blockbuster" deixa alguns sorrisos de satisfação.

Kristen Wiig e Pedro Pascal em "Mulher-Maravilha 1984"

A nossa felicidade, mesmo que efémera, encontra-se na galeria de vilões: um maneirista e pomposo Pedro Pascal como Max Lord, um candidato a magnata do petróleo com um amaldiçoado toque, e Kristen Wiig, a romper com a sua personagem-tipo de comediante ao encarnar a arqui-inimiga da nossa heroína Barbara Minerva (a Cheetah dos "comics").

As duas personagens vêm apimentar toda esta cruzada ideologicamente moralista liderada pela protagonista (e pelo filme), que irá assumir o seu devido papel de “locutora para o Mundo” no clímax. São utopias projetadas, humildades lecionadas a rodos e o sacrifício derradeiro como ingredientes para uma “Humanidade melhor e mais compreensível”. Ou seja, é o regresso do herói de banda-desenhada como exemplo definitivo da ética e da cidadania. Mais do que tudo, são os EUA a debaterem-se com esta sua, por vezes, imagem perdida.

"Mulher-Maravilha 1984” responde a estes tempos incertos com o sabor de um cinema-pipoca que praticamente desapareceu das salas. Agora, isso leva-nos a venerar o resultado? Claro que não, mas concretamente existe aqui uma confiança de Patty Jenkins numa Hollywood megalómana de um só propósito (o do criar "blockbusters" que rendam milhões e e mais sequelas) e a sua devoção como realizadora em criar um colorido e assumidamente bacoco entretenimento.

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