A HISTÓRIA: A história fictícia de amor jovem numa festa de Blues, em 1980. O filme é uma ode ao género musical reggae romântico chamado "Lovers Rock" e à juventude negra que encontrou liberdade e amor na música que ouvia nas festas em Londres, quando não era bem-vinda em discotecas “brancas”.

"Small Axe - Lovers Rock": disponível na HBO desde 23 de novembro. Cada episódio é um telefilme. O terceiro episódio, "Red, White and Blue", está disponível desde 30 de novembro e a crítica será publicada a 7 de dezembro.


Crítica: Hugo Gomes

Longe do evidente tom justiceiro de “Mangrove” [ler crítica], um exercício de ambiência e de flexibilidade técnica é o que nos reserva o segundo capítulo de “Small Axe”, a antologia de Steve McQueen (“Vergonha”, “12 Anos Escravo”).

Num tempo, os anos 1970, em que o divertimento noturno era privilegio de brancos no Reino Unido, os negros improvisam a sua própria discoteca, e é este cenário com que se depara o estilo a que estamos habituados do realizador britânico, que aqui adquire toda a melodia para os seus portentosos dotes tecnicistas.

"Travellings", órbitas à volta das suas personagens e o dinamismo de uma câmara que acompanha a ação, são gestos autorais que se adequam aos espaços fechados e limitados e que McQueen já tinha mostrado com garra com a sua primeira longa-metragem – “Fome” (2008) – sobre o prisão do membro da IRA Bobby Sands. Este espaço de experimentação e descoberta para o seu cinema desinibi-se por completo com “Lovers Rock”.

O “lovers rock” (um misto de reggae romântico dos anos 70 e 80 que influenciou posteriormente todo um conjunto de bandas britânicas) domina a pista e a partir daí a câmara de McQueen, que anteriormente tinha mapeado aquele espaço da discoteca, torna-se refém dos ritmos quentes dos corpos que se desejam fundir num só movimento. Não vemos personagens, mas coreografias em vestes de “escravos emocionais da música”, constantemente intercaladas com sirenes (existe aqui um medo de que a festa “ilegal” seja interrompida pela brigada).

Este é um cruzamento de “sons”, utilizando a linguagem dos seus DJs (Mercury Sound), a criação de uma atmosfera aparentemente harmónica, lúdica, mas igualmente ameaçada por invisíveis inimigos. Sentimos os “problemas no paraíso”, mas é pela sua direção, a de nunca se vergar ao tom propagandista ou de mero panfleto do “episódio da semana”, que “Lovers Rock” aguenta firme nas suas canelas. Este é um bailado de destreza, de “frescura” e envolvência.

Se tínhamos dúvidas quanto a este suposto "telefilme", eis a agressiva resposta do segundo capítulo de “Small Axe”: há mais cinema aqui que muito cinema que chegava às salas antes da pandemia.

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