A HISTÓRIA: Um ladrão de bancos envolve-se num plano para levar a cabo um histórico golpe final, antes que o governo emita um sinal que porá termo a toda a atividade criminosa.

"The Last Days of American Crime" está disponível na Netflix Portugal a partir de 5 de junho.


Crítica: Hugo Gomes

Coincidências das coincidências: perante as manifestações e revoltas geradas pela morte de George Floyd e a sua dimensão, é pertinente encontrarmos na Netflix um produto de ficção científica que “brinca” com o fim da violência, qualquer que seja a sua natureza (tirando a da polícia), como uma arma de controlo e opressão de um desesperado Governo autoritário.

Até pelo debate que existia a certa altura sobre o rastreamento de pessoas infetadas pela COVID-19 na nossa sociedade, o filme poderia representar um olhar transgressor e de denúncia sobre as lutas pela pacificação e os mecanismos de controlo de massas, com o auxílio da tecnologia.

Mas as ideias ficam à porta, porque "The Last Days of American Crime" (sem título traduzido) é inconsequentemente inútil na sua própria crítica. Este embrião de distopia nem sequer se vinga como um apoiante dos projetos totalitários. Sem qualquer feito ou intenção de ser por mais do que é, tudo decorre aqui no maior anonimato das produções de ação com anti-heróis solitários prestes a aceitar a monogamia e fraternidade, e uns brindes visuais que transmitem uma suposta energia estética.

Sim, pior do que um filme fascista, é um que se inibe de revelar a sua posição, até porque a arte (cinema incluído), não é politicamente imparcial. Por mais incrível que seja, "The Last Days of American Crime" é uma abstenção ideológica.

E quanto ao resto da campanha? Nem como filme de ação tem valor para merecer uma espreitadela. Oliver Megaton, realizador da escola de Luc Besson (por exemplo, das sequelas de "Taken"), pulveriza uma narrativa de uma enxurrada pindérica e igualmente despersonalizada (149 minutos é muito para o que nos é apresentado), um argumento mais do que confuso, rascunhado e aprovado à socapa.

A somar a tudo isto, infelizmente temos, de Édgar Ramírez a Michael Pitt, Patrick Bergin e Sharlto Copley, atores com prazo de validade expirado (em mais um trio amoroso, desta vez sem inspiração, o outrora promissor Michael Pitt de "Os Sonhadores" de Bertolucci é agora uma versão Jared Leto da loja dos 300).

Se fossem precisas mais provas de patetice existencial, basta esperar cerca de dez minutos de prolongada introdução e contexto desorientado, para chegarmos a uma “rapidinha” dessexualizada sem engate numa casa de banho de bar entre os dois protagonistas. É uma imagem de puro deleite “azeiteiro”, disfarçado de proeza e rebeldia, que só mostra a incompetência de um realizador em centrar-se numa narrativa ou construir personagens cativantes para além do óbvio. Um filme criminoso.

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