Foi o caso do espetáculo que Bill Callahan deu, ontem à noite, no São Jorge, em Lisboa, e que levava o nome do seu mais recente trabalho: “Dream River”. Este rio apresentou-se sem corrente, tranquilo – seguindo a lógica da sua música -, mas também isento de alguma emoção. E, até nas palavras que o músico norte-americano dirigiu ao público, havia algum cinismo.

A entrada em palco, passavam três minutos das 23h00, foi entregue a três temas de “Dream River”: “The Sing”, “Javelin Unlanding” e “Small Plane”. No pano de fundo, eram exibidas várias imagens, como um pôr-do-sol, a acompanhar a primeira; imagens de várias paisagens, para a segunda; e imagens aéreas a acompanhar a viagem de “Small Plane”.

“É muito bom estar aqui, obrigada por terem vindo”, foram as primeiras das raras palavras dirigidas ao público.

Ao quarto tema, “Too Many Birds”, houve o primeiro reconhecimento da audiência de um tema que saiu do álbum de 2009, “Sometimes I Wish We Were an Eagle”, com o belíssimo verso “If You could only stop your heart beat for a heart beat” e com o público a aplaudir entusiasticamente no final da canção. Um público que se revelou contido nas suas demonstrações de carinho - ou talvez seja este o público do músico.

De harmónica, Bill arranca os primeiros acordes de “America”, do álbum “Apocalypse”, de 2011, uma canção que revela algum do cinismo do autor para com o seu país de origem, nomeadamente quanto à sua força bélica. E algum deste cinismo de Bill Callahan ficou também evidente após a sua interpretação do sexto tema da noite, novamente de volta a “Dream River”, “One Fine Morning”, que abriu lentamente com as cordas, para só com o verso “It’s all coming back to me now” entrar a bateria.

“You’ve been a beautiful audience so far. But beauty doesn’t live forever, it’s ephemeral, temporary...”, conta-nos. As imagens que se sucedem no pano de fundo, de uma tourada, dão o mote ao tema seguinte, “Ride my Arrow”, de “Dream River”, e antecedem a apresentação dos músicos: Matt Kinsey na guitarra, Jamie Zuverva no baixo, e Adam Jones na bateria. “E Bill Callahan na guitarra”, acrescenta Zuverva, com Callahan a sussurar no microfone: “e harmónica...”

Depois de “Drover”, retirado de “Apocalypse”, seguiu-se o único tema a sair de um álbum dos Smog, a antiga banda de Callahan: “Dress Sexy For My Funeral”, de “Dongs of Sevotion”, de 2000.

Houve ainda tempo para mais três temas de “Dream River” e para uma cover de “Please, Send Me Someone to Love”, de Percy Mayfield, durante a qual houve muita jam session e solos dos vários músicos.

“Spring” e “Seagull” foram as canções ainda retiradas do trabalho que dá nome a esta turnée, antes de Bill Callahan anunciar a última canção da noite, “Winter Road”, e agradecer, mais uma vez, à sua “beautiful audience”. Mas, se a beleza é efémera, a noite é ainda mais, assim como os espetáculos - e este já não duraria muito mais.

Ficou a voz rouca e profunda de Bill Callahan na nossa memória e ficou a música, interpretada sem falhas, de forma profissional. Ficou a ausência de ligação com o público, que parecia também não querer muito mais do músico. Se os pedidos de músicas, por vezes exasperantes, por parte dos espetadores conseguem ser exagerados, neste concerto, pecou-se pela carência até de um simples “We love Bill Callahan” - ou talvez isso seja para os nomes mais populares. O público foi muito contido no seu entusiasmo e parecia agradado por estar a ouvir um concerto em tudo fiel ao álbum que apresentava. Ao meu lado, uma rapariga dormia no ombro do namorado, talvez pelo cansaço, talvez porque a música calma a embalava.

A primeira parte ficou a cargo do projeto Circuit des Yeux, uma norte-americana de 25 anos, que já vai no seu quinto álbum, “Overdue”, lançado em outubro de 2013. Guitarra e efeitos sonoros para uma voz grave que, por vezes, arrancou alguns saltos aos mais distraídos na audiência e que levou também algumas pessoas a abandonarem a sala antes da entrada de Bill Callahan. Porque, se há coisas que não duram para sempre, outras há que não se aguentam nem por tão pouco tempo.

Texto: Helena Ales Pereira
Fotografia: Ricardo Junqueira

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