“Não, não é um dia de Rock in Rio, é uma multidão que vai ver Bon Jovi”, dizia um polícia à saída do metro. Enganaram-se, pois, os que suspeitavam que o público português (e umas centenas de estrangeiros) iria boicotar o concerto em Lisboa, devido ao concertode Madrid, que poupou as carteiras de nuestro hermanos, ao serrealizado por um preço simbólico. Pois bem, ontem, as pessoas presentes no Parque da Bela Vista enchiam praticamente toda a paisagem relvada.

Em 2011, os Bon Jovitinham sidorecebidos na mesma sala de espetáculos ao ar livre por 50 mil pessoas, entre as quais muitas representantes do sexo feminino, muitos miúdos e, também, por muitos adultos que eram miúdos nos anos 80. Este ano, porém, sem Richie Sambora na formação, havia quem receasse a falta da sonoridade que o guitarrista tem vindo a dar à banda desde 1983.

Os portugueses Brass Wires Orchestra fizeram aquecimento do palco e de quem, sentado nas colinas, comia um cachorro quente. Com sonoridades que remontam ao reportório de Mumford and Sons ou à festividade dos Arcade Fire, a orquestra de trompetes e guitarras escondeu os nervos e fez os corpos dançarem.

No ano em que comemoram 30 primaveras, os Bon Jovi trouxeram na bagagem, para além de algunsseus êxitos, o mais recente álbum, “What About Now”. Passados 16 minutos das 21 horas, levantaram-se os braços e as imparáveis câmaras que, de imediato, começaram a gravar o que se assemelhava a uma intro de uma peça cinematográfica. Numa dinâmica multicâmara, que mostrava os diferentes ângulos em que os artistas se encontravam, apresentou-se, então, "That's What The Water Made Me".

O calor de Verão, que finalmente resolveu aparecer, levou Jon ao palco, vestido com um colete de cabedal, com o peito e a tatuagem de "Super Homem" à mostra. E, quando menos se esperava, “You Give Love a Bad Name” chega para arrebatar corações desprevenidos e faz o chão da Bela Vista tremer, com saltos e vozes em potência máxima. Em “Raise Your Hands”, de “Slippery When Wet” (1986) – um dos discos obrigatórios do Rock and Roll Hall of Fame – concedeu-se o pedido do vocalista, com coreografia em sintonia.

Um dos primeiros temas da carreira do coletivo, “Runway”, fez, pouco depois, a locomotiva viajar a todo o vapor, com profissionalismo para dar e vender. Poucos minutos depois, sintonizou-se a veia amorosa, numa balada rock em que a voz (e os icónicos cabelos) de David Bryan se juntou à festa.

E eis que o alinhamento começa a adormecer a audiência, que pouco entusiasmada ouviu “Radio Saved My Life Tonight”. “Are you warmed up yet?”, questiona o vocalista antes da temperatura voltar a subir com “It’s My Life”, o primeiro single de “Crush” (2000) e uma das canções mais esperadas da noite. Contudo, a nova mecânica da banda não fez ouvir, em toda a sua glória, o solo que Phil X, o guitarrista substituto, competentemente desempenhou. “Because We Can” levou balões e confettis à plateia, num divertido episódio que até os seguranças apreciaram. O sorriso de Jon Bon Jovi é tão emblemático que faz (até) os homens mais velhos corarem.

“What About Now” soou a música de intervenção, com uma história sobre problemáticas sociais, que fez Lisboa cantar: “’cause tonight, we’re alive”. Nos ecrãs gigantes, para além dos bíceps de Jon, viam-se cartazes com propostas como “Jon, my wife doesn’t want to die without kissing you” ou sandações como “Hello, Gods”. “Who says you can’t go home?” antecedeu “Keep the Faith”, do álbum homónimo de 1992, com maracas e movimentos de ancas que entretiveram o público enquanto este se ocupava com as sessões fotográficas do costume. É realmente bom perceber que o carisma de um artista (e do que resta da sua banda) faz pelas memórias de milhares de pessoas.

“Superman Tonight”, do 11º álbum da banda, “The Circle” (2010), voltou a atenção das câmaras para o símbolo do herói voador da DC Comics que Jon tem no braço. A noite quente volta a perder algum do seu fervor com “Lost Highway”, “We got it going on” – apenas animada pelo tease lançado “I came back to Portugal for one reason...I love the sound of the ladies when they scream”. Seguiram-se (respirem fundo) “Captain Crash And The Beauty Queen From Mars” e “We weren't born to follow”. E o público desesperava pelos clássicos…

A prece foi ouvida e os deuses musicais concederam, finalmente, “In these arms”, “Sleep when I’m dead” e uma versão especial de “Rockin’ All Over The World” – um tema escrito pelo músico californiano John Fogerty.

Imagens de “miúdas” a dançarem numa pista com poderosos raios X pintavam “Bad Medicine” pouco depois, a única referencia ao trabalho de estúdio “New Jersey” (1988). E, numa coincidência infeliz, os paramédicos foram necessários para socorrer algumas pessoas que acabaram por se sentir mal. O único “obrigado” da noite concluiu a retrospetiva de Jon sobre o concerto dado há dois anos. Depois de elogios ao sol de Portugal, os Bon Jovi despedem-se pela primeira vez.

Com nova indumentária, a banda regressa poucos minutos depois, para concluir a agradável (mas não explosiva!) lição de rock and roll. “Love’s the only rule” abriu portas ao encore, do qual também fizeram parte “Have a Nice Day”, “What’s Left of Me” e “Wanted Dead or Alive”, que, com alma western, o povo acompanhou num cântico que fez da Bela Vista o faroeste.

Para os resistentes que se mantinham de pé e para os que descansavam sentados veio a prenda final, o majestoso “Livin’ on a Prayer”. Com distorções vocais e um solo que teria deixado Sambora orgulhoso, fez-se a banda sonora de uma noite em que rockeiros e jovens festivaleiros presenciaram uma (muito) pequena montanha russa de emoções.

À saída, ouviam-se os queixumes de um alinhamento programado com pouco amor ao passado e, claro, das típicas dores de pés e das tremendas filhas para o autocarro de regresso a casa.

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