Ontem à noite, no CCB, que tem acolhido nos últimos meses o ciclo Há Fado no Cais, dando a conhecer ao público lisboeta, e não só, o reportório de alguns dos mais interessantes fadistas da atualidade, Carminho deu a conhecer o seu novo álbum, que vem embalado pelo sucesso do estreante "Fado", que a colocou no grupo das novas vozes do Fado, ao lado de nomes como Cuca Roseta ou Ana Moura, e do seu sucessor, "Alma", que fez as delícias dos fãs do género entre portas e além-fronteiras.

Apresentar um disco pela primeira vez é uma prova de fogo, quer para o artista, quer para o público. Para a artista, pelo nervosismo e expetativa que implica apresentar novas canções, trabalhadas unicamente em estúdio; para o público, para quem os temas são ainda desconhecidos, que pode, ou não, render-se à primeira audição. Carminho passou-a com distinção, cantando o Fado com naturalidade e intensidade, não obstante o nervoso miúdinho revelado nos momentos de interação com a plateia.

O novo disco da cantora é, definitivamente, mais internacional. O tema Chuva no Mar, por exemplo, conta com a colaboração de uma muito elogiada em palco Marisa Monte - um exemplo para Carminho enquanto artista e pessoa, que, no Brasil, não hesitou em abrir o seu baú de composições para a fadista; e de Carlinhos Brown, que contribuiu para a canção na percussão. As influências do Brasil, já presentes na reedição do seu disco anterior, continuam com em O Sol, Eu e Tu, escrita por Caetano Veloso, e denotam um disco que se afasta mais das composições fadísticas mais tradicionais.

E, já que falamos de colaborações, destaque também para a de Miguel Araújo, que, por coincidência, havia atuado na mesma sala no dia anterior, autor do tema Ventura -uma tarefa que assumiu depois de muita insistência por parte da artista.

A admiração expressa por Carminho em relação aos colaboradores deste "Canto" levaram a que o CCB fosse inundado por um sentimento de familiariedade, e mesmo de aconchego, apesar da novidade implícita, mesmo em momentos mais animados, como em Saia Rodada, escrita por Diogo Clemente e divulgada nas redes sociais antes do concerto. Cantada duas vezes, do início ao fim, a primeira amostra do novo registo logo invadiu a mente dos presentes, que, ainda hoje, por certo, estão a cantarolar a letra do tema.

Em palco, também se cantou Andorinha, uma canção composta por si e cuja letra havia deitado fora, à semelhança do que fez com todas as outras do disco, até alguém da sua equipa a recuperar, alertando-a para a qualidade da mesma.

No final do espetáculo ouvimos Canção, escrita pelo jovem compositor Martim Vicente - uma escolha mais do que acertada para encerrar um momento tão íntimo como o de ontem.

Mas não só os novos temas da fadista foram ontem interpretados, havendo também tempo para a revisitação das canções que a fizeram ganhar um lugar especial por entre o público. As Pedras da Minha Rua e Bom Dia, Amor, onde é contada a história da senhora feia, baixa e corcunda que se apaixonou por um serralheiro que passava todos os dias à sua janela, originaram aplausos vários, com a plateia do CCB a não hesitar numa ovação em pé. Também a visita ao primeiro disco, com os temas Escrevi Teu Nome no Vento - Fado tantas vezes cantado pela mãe de Carminho, Teresa Siqueiro - e Meu Amor Marinheiro, resultou nalguns dos melhores momentos do concerto, que terminou ao fim de uma hora e meia de emoções.

A dose é dupla. Hoje há novo espetáculo, para todos os desejarem comprovar o talento de Carminho e conhecer as suas novas «armas».

Texto: David Pimenta

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