“Em uma determinada época no Brasil criou-se o mito de que música boa era só a cantada em português do Brasil ou em inglês. Todas as outras passaram a ser consideradas bregas e Portugal também foi posto nessa perversidade. Há bandas excelentes que não chegam aqui”, afirmou Dapieve à agência Lusa.

Para o crítico musical, não há um preconceito “específico” em relação à música portuguesa e sim a tudo que não é cantado em inglês.

“Portugal é posto no mesmo pacote que os outros países. Não vejo um preconceito específico. A resistência à música portuguesa é a mesma que ocorre com a música argentina, por exemplo”, defendeu o crítico e colunista do caderno de cultura do jornal O Globo.

Segundo ele, essa tendência em ouvir canções em inglês fixou-se principalmente a partir da década de 1980 e fez com que se consumisse inclusive música de qualidade muito inferior à produzida em Portugal.

“Há sem dúvida uma resistência [à música portuguesa]. E isso faz com que, quando chega, acaba chegando uma música mais tradicional, fadistas como a Mariza, mas pouco mais que isso”, afirmou Dapieve, a lamentar que nem a fadista Aldina Duarte – que destacou como grande intérprete – tem expressão no país.

Para o crítico, a entrada do fado pode ser explicada pela presença de imigrantes portugueses mais velhos, de uma geração anterior.

“Acho que se seguirmos importando muita mão-de-obra qualificada de Portugal, como está acontecendo agora, isso pode acabar por ajudar a trazer algo da música contemporânea para cá”, prevê.

Para Dapieve, o que permite que o fluxo contrário – de consumo da música brasileira em Portugal – seja tão intenso, é a ajuda das telenovelas, bem como o facto de que as canções brasileiras conseguiram associar-se a um conceito de algo mais “moderno”.

“Talvez Roberto Leal tenha feito um grande ‘des-serviço’ à música portuguesa no Brasil. Porque ela ficou associada a uma música muito tradicional, essa coisa meio folclórica e, claro, não é só isso”, acrescenta.

Das bandas de Portugal que entraram na programação do festival Rock in Rio, no Rio de Janeiro, Dapieve destacou Xutos & Pontapés como um grupo conhecido dos brasileiros, que teve certa penetração nos anos 1980, e que poderá atrair um público importante no concerto, no domingo.

“Eles se apresentarão ao lado dos Titãs, que são uma banda brasileira que ainda mantém relativo sucesso, então é possível que o público seja grande, mas isso não seria o suficiente”, afirma, observando que estes êxitos momentâneos não costumam durar e deveriam ser acompanhados de outros tipos de iniciativas mais frequentes de promoção da música portuguesa no Brasil.

“Acho que se um bom produtor cultural, com apoio financeiro, promovesse uma boa noite de música portuguesa, com três artistas contemporâneos, em parceria com a embaixada, poderia ajudar a divulgar mais”, sugeriu o crítico.

E reforçou que são precisas ações “coordenadas” e que durem certo tempo, para superar o êxito apenas momentâneo de poucos grupos, que depois não se mantém.

Entre as bandas portuguesas contemporâneas que mais gosta, Dapieve destacou os Deolinda e os Amor Electro, que nunca se lançaram oficialmente no Brasil.

Arthur Dapieve é autor da biografia “O Trovador Solitário”, sobre a vida do músico brasileiro Renato Russo, da banda Legião Urbana.

@Lusa

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