"I'm just a copy of a copy of a copy/ Everything I say has come before", admite Trent Reznor ao interromper cinco anos de silêncio dos Nine Inch Nails na primeira canção de "Hesitation Marks", "Copy of A". Agradece-se a sinceridade (ou a ironia, ou talvez um pouco de ambas), embora a reciclagem de sons e palavras já seja, por esta altura - e sobretudo a partir de "With Teeth", de 2005 -, um cenário habitual na discografia do projeto.

Talvez até seja melhor assim, a julgar pelas reações eriçadas de muitos fãs a "Everything", uma das amostras do álbum reveladas antes da sua edição. Ao contrário de outros momentos do alinhamento, esse tema apresentou-nos um Trent Reznor como nunca o tínhamos ouvido, a comandar uma power pop garrida próxima da fase mais recente de uns Strokes (ou da ligeireza dos praticamente esquecidos e derivativos Filter, dirão as más línguas). Não era caso para tanto repúdio: sem ser particularmente boa, também não era uma canção especialmente evitável, mesmo que surja como uma anomalia na obra dos Nine Inch Nails. Mas uma anomalia compreensível, a espelhar uma alma finalmente bem resolvida - ou o mais próximo disso até hoje.

Pai de família, homem de negócios, músico oscarizado e aparentemente livre da dependência do álcool e das drogas, Reznor é, quase com meio século de vida, um dos mais notáveis sobreviventes da geração alternativa e alienada dos anos 90. O loser experimentou o sucesso (pessoal e profissional), não parece querer livrar-se dele e até se dá ao luxo de fazer um hino de consagração ("I survived everything/ I have tried everything (...) I've become/ Something else (...) I am whole/ I am free"). O rebelde de ontem, hoje perfeitamente integrado no sistema, mete-se a jeito para levar o rótulo de "vendido" e, na verdade, não faltaram acusações disso mesmo quando esteve na cerimónia dos Óscares, em 2011, para receber a estatueta dourada de Melhor Banda Sonora por "The Social Network". Se merece ou não esse rótulo interessa pouco quando a música foi imune a mazelas - antes pelo contrário - nessa parceria com Atticus Ross.

Videoclip de "Came Back Haunted", realizado por David Lynch:

O convite de David Fincher resultou no último grande disco que Reznor assinou, mas "Hesitation Marks" vem agora devolver os Nine Inch Nails à boa forma cinco anos depois de "The Slip" (que, tal como "Year Zero" e "Ghosts I–IV", foi mais determinante pela estratégia de distribuição - no caso, o download gratuito - do que pelas canções). O que começou como ameaça de final do projeto - tanto em disco como nos palcos - revelou-se antes um hiato descrito pelo músico como imprescindível. A pausa não equivaleu a descanso quando a ligação ao universo cinematográfico foi reforçada (pela banda sonora de "The Girl With the Dragon Tattoo", também com Ross e novamente a convite de Fincher) e a vida a dois teve repercussão nos discos (através dos How to Destroy Angels, que contam com a voz de Mrs. Reznor, Mariqueen Maandig, e editaram o álbum de estreia em março).

"Hesitation Marks" reflete essas aventuras laterais dos últimos cinco anos enquanto também retoma o que estava para trás, ficando a meio caminho entre o sentido atmosférico de "Welcome oblivion" ou da música para filmes e a vertente mais agreste do legado de "The Downward Spiral" ou "The Fragile". Os ataques de raiva e desespero estão agora mais contidos, embora a crise - existencial, emocional - ainda domine estas canções (sim, apesar de "Everything").

Com a ajuda de Atticus Ross e Alan Moulder, suspeitos do costume na produção, Reznor dá acabamentos de luxo a canções bem construídas, sem o rasgo dos seus álbuns de referência (os três primeiros) mas com mais consistência do que os menos inspirados (os três últimos). A presença nas guitarras de Lindsey Buckingham (dos Fletwood Mac) e Adrian Belew (dos King Crimson) não impede o predomínio da eletrónica, servida pelos sintetizadores de Alessandro Cortini (convidado dos últimos discos) e Adrian Belew (dos Autolux).

Tal como na música, a tensão das palavras está agora mais diluída. O que antes equivalia a páginas rasgadas do diário de um adolescente - pródigo em auto-comiseração - cede espaço a alguma resignação ou esperança, como no episódio intimista, ao piano, de "Find My Way" (com ecos de "The Fragile"). Mas o melhor de Reznor está longe de ser a voz ou as palavras, impressão confirmada pelos ambientes de um disco que resgata a EBM (no exercício dançável de "Copy of A"), testa o funk industrial ("All Time Low", derivado amansado da marcha de "Closer"), move-se por terreno mais abstrato ("Disappointed", atento a alguma eletrónica minimal), faz tangentes ao R&B ("Satellite", com um balanço que os Neptunes não desdenhariam) e ensaia outras dinâmicas rítmicas pelo caminho (a certa altura, "Running" parece ter a mão de Diplo).

Sem contar com explosões comparáveis às de outros tempos, "Hesitation Marks" ainda serve alternâncias convincentes entre versos sussurrados e refrão gritado, muito anos 90 ("Various Methods of Escape", "I Would for You"), que ainda assim ficam aquém da claustrofobia do final instrumental, no minuto e meio de "Black Noise". Simultaneamente o momento mais estimulante e frustrante, o tema fecha o disco com um crescendo de drones ao melhor nível das bandas sonoras de Reznor. Ao lado destas texturas, com uma ansiedade tão implacavelmente desenhada e conduzida, o resto do alinhamento até se arrisca a passar por ameno, mesmo que constitua, sem grandes hesitações, o álbum mais recomendável dos Nine Inch Nails em muitos anos. Só não é tão devastador como esse epílogo demasiado breve...

@Gonçalo Sá

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