Tal como aconteceu na tarde anterior, os primeiros concertos no recinto tiveram uma assistência reduzida, com muitos festivaleiros a ficarem-se pelas margens do rio Coura a aproveitar a última tarde de sol. Contudo, o público reduzido não impediu os Youthless de subirem ao palco com a energia no máximo, bastante faladores e prontos a conquistar os que vieram vê-los. O baterista, Alex Klimovistky, chega até a fazer piadas sobre a semelhança entre o nome da sua banda e o nome da banda que se seguia no alinhamento do palco Vodafone – os também portugueses Best Youth. No entanto, não é a conversa fiada, mas sim a bateria rápida e o baixo intenso do grupoque seduzem os elementos da assistência, brindados com músicas do EP “Telemachy”, ao qual foram buscar a viciante The Beats, e de “Monsta”. Alguns elementos do público acabam por ser convidados a subir ao palco, tão simpáticos e interativos são os Youthless.

O palco principal pertence, entretanto, aos Ladrões do Tempo, projeto liderado por Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, e que inclui outras caras bem conhecidas do panorama musical português, como Pedro Gonçalves e Tó Trips, dos Dead Combo, Paulo Franco, dos Dapunksportif, e Samuel Palitos, dos Censurados.

O público não é muito e prefere um lugar sentado, mais afastado do palco. Outos optam por ir conhecer (ou despedir-se) dos espaços dos patrocinadores, onde os espera uma última oportunidade para ganhar brindes apetecíveis. A loja dos produtos oficiais do festival também foi muito procurada neste último dia.

Em palco, os Ladrões do Tempo divertem-se, relaxados, entre piadas cúmplices. Os fãs das várias bandas representadas em palco usufruem da oportunidade de apreciar os músicos num contexto que não é o habitual. Por momentos, parece um concerto íntimo, quase familiar. São seis temas os tocados, antes do grupo abandonar o palco, para logo voltar para um encore, face aos aplausos do esparso público. Visto não terem mais músicas preparadas – “culpa da crise”, brincam – repetem Mora na Filosofia, a mais conhecida e single do projeto.

Os Best Youth começavam, entretanto, a sua atuação no palco secundário, recebidos por uma audiência calorosa, que mostrou conhecer mais do que Hang Out, o tema da dupla que mais atenção recebeu nas rádios nacionais. A mais dançável Honey Trap também integrou o alinhamento da performance, que recebeu o maior número de aplausos aquando da referência ao concerto dos Ornatos – algo que se viria a tornar hábito ao longo do dia.

Aos Ladrões do Tempo seguiram-se os Capitão Fausto, uma banda jovem, em estreia neste certame. Há um ano – contam – faziam parte dos milhares de espetadores. Agora encantam outros milhares como temas como Verdade ou Teresa, entre momentos instrumentais de intensidade psicadélica. Aproveitam ainda as luzes da ribalta para mostrar uma nova canção, deixando claro que são um grupo com mais do que uma ou duas canções engraçadas.

Os Memory House trouxeram do Canadá um dreampop adorável. Acompanham as batidas simples com letras de uma nostalgia juvenil, como acontece em The Kids Were Wrong. São canções sobre a efemeridade de um amor de verão e amizades perdidas, com a guitarra a conferir um lado sonhador a cada uma delas. Naturalmente, não mencionam a atuação dos Ornatos Violeta prevista para essa noite, mas o público encarrega-se de o fazer, entre romarias ao merchandising da banda de Manel Cruz.

No palco principal começa a tocar outra banda estrangeira – The Go! Team. Liderados por Ninja, sobem ao palco dispostos a conquistar um público expectante. Atiram canções rápidas que misturam rock, eletrónica e rap, eimediatamente fazem a festa entre a plateia, que dança e pula de braços no ar. T.O.R.N.A.D.O. deu o pontapé de saída de uma atuação onde, entre músicas, houve sempre disposição para o jogo das cadeiras, com os músicos a correrem ao redor dos seus postos, ficando Ninja frequentemente de fora, dando assim lugar a Chi Fukami Taylor ou Kaori Tsuchida no papel de vocalistas de serviço.

A certa altura, Ninja, de forma ambiciosa, joga uma poderosa carta: puxando o lado patriótico dos portugueses, revela não costumar tocar em Portugal e, como tal, não conhecer bem o que o público português é capaz de fazer. “O francês e o espanhol já provaram a sua qualidade”, garante. Estratégia simples, mas eficaz, e, num dia de bandas portugueseas, os The Go! Team conquistam o seu lugar.

Lá em cima, os God is an Astronaut dão início ao espetáculo, após alguns problemas técnicos que lhes custaram a componente multimédia do concerto, que arrancou sem suporte vídeo. A banda instrumental irlandesa tem uma verdadeira multidão aos seus pés.Para seu deleite, uma sucessão de temas dos primeiros discos entra logo a abrir. Tal como o evento, também a a banda celebra um aniversário muito especial: fazem dez anos e que melhor forma de festejarem do que uma viagem através de toda a sua discografia?

Quando os Dead Combo começaram a tocar, já a casa estava quase cheia. Trouxeram consigo “Lisboa Mulata”, mas interpretaram canções de toda a sua discografia, incluindo a poderosa Cacto. Acompanhou Pedro Gonçalves e Tó Trips Alexandre Frazão, na bateria, sendo a percussão uma adição interessante ao som da dupla. Foi um concerto muito bem conseguido, tal como já nos habituaram, cujos pontos altos foram, certamente, a subida ao palco de Peixe, dos Ornatos Violeta, para uma colaboração, e a versão de Temptation, de Tom Waits, já presença assídua nas performances da dupla.

Antes de começarmos a relatar o concerto dos Ornatos Violeta – o mais importante da noite, muito provavelmente do festival, talvez do ano, em Portugal – é importante recordarmos duas coisas. Em primeiro lugar, a enorme expetativa em redor desta reunião. Apesar de ter terminado há dez anos, o grupo continua a ser um dos mais queridos do público português, sendo que o tempo longe dos palcos parece só ter contribuído para aumentar o seu estatuto junto dele. Em segundo lugar, a promessa feita em várias entrevistas de que este concerto em Paredes de Coura seria dedicado exclusivamente a “O Monstro Precisa de Amigos”, segundo disco de originais da banda, que confirmou o seu lugar de destaque no panorama nacional. Pode desde já dizer-se que essa promessa foi cumprida, tendo ficado algumas das músicas favoritas dos fãs, naturalmente, fora do alinhamento.

Tal como previsto, os Ornatos Violeta foram recebidos calorosamente pelos milhares de fãs que os esperavam. Por sua vez, responderam como uma dedicação que apagou os dez anos que estiveram ausentes, envoltos noutros projetos. Tocaram “O Monstro Precisa de Amigos” de uma ponta à outra, literalmente, com a assistência a acompanhar Manel Cruz nas vozes, sempre que o momento era propício. Ouvi Dizer teve direito a coro de milhares, como não poderia deixar de ser.

Os presentes estão de tal forma hipnotizados que Cruz chega mesmo a perguntar se ninguém vai dizer o palavrão da praxe. Distraído, absorto, o público leva vários segundos a responder.

Além de emotivo, foi também um concerto que se fez em modo festa, como Manel Cruz a saltar para o meio da audiência em O.M.E.M. e com a banda a apoderar-se da bateria de Kinorm, num momento de percussão conjunta.

Tal como acontece quando ouvimos o disco em (re)apresentação, o tempo passou depressa e cedo chegou a Fim da Canção. O público pede o encore com uma intensidade rara e são duas as vezes que a banda regressa ao palco, onde toca vários inéditos – alguns da altura do “Monstro”, outros mais antigos que “Cão”. Na loucura do momento, dá-se uma evasão de palco, não feita por membros da audiência, mas pelos vários técnicos da banda.

Tanto a promessa como a expetativa foram cumpridas. Mais que cumpridas, diríamos, com banda, público e equipa técnica a sair do Taboãode sorriso estampado no rosto.

Texto: Henrique Mourão

Fotografias: Iris Rocha

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