Sim, em fim-de-semana (prolongado) de Super Bock Super Rock – e já agora de Esperanza Spalding nos Coliseus -, a lotação do Marés Vivas – ou MV tmn, como preferirem – atingiu o pico mais alto, fazendo os mais recatados recordar com algum saudosismo os anos anteriores, em que apenas os mais audazes – leia-se malta estudante, sem as típicas obrigações laborais do dia seguinte, e fãs exímios dos nomes presentes no cartaz – se aventuravam nesta coisa de festival urbano em dia de semana.

Poderíamos atribuir a culpa de toda esta azáfama – o trânsito não era, definitivamente, uma realidade exclusiva do exterior - à música pacifista e embala-corações dos Natiruts ou, quem sabe, ao regresso (em jeito de encore) aos palcos de Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, que esteve afastado dos holofotes durante umas semanas, devido a questões de saúde. Mas estaríamos a ser falaciosos. Na verdade, o cabedelo encheu, quase abarrotou, para receber, e de braços bem abertos, Manu Chao e o seu longo e muitíssimo aguardadoconcerto – único, por estes dias, na Península Ibérica.

Apesar de terem acolhido com nítido entusiasmo os restantes nomes do cartaz, inclusivé os destacados para o palco secundário do certame (Pitt Broken e Anaquim com estes últimos a afirmarem-se como uma aposta ganha, ao vivo, da música nacional), era pelo francês «cidadão do mundo» que todos – com exceção, talvez, dos mais «verdes» da colheita – ansiavam, gritavam e desesperavam, nomeadamente quando o relógio se começou a aproximar perigosamente das 02h00 (o concerto estava inicialmente previsto para a 01h00).
Mal sabiam eles que iriam ver – porém, com agrado - o seu relógio aproximar-se das 03h00, das 04h00 - “já passa mesmo das 04h00?!?!” -, enquanto um Manu Chao hiperativo, com fome de palco e de festa grossa, debitava êxito atrás de êxito, apetrechando-os com roupagens punk/ska nos últimos acordes, num incentivo eficaz à folia, à galhofa, à diversão pura e dura – daquela que, no dia seguinte, nos faz não sentir as pernas, as cordas vocais e tudo o que de nós restou.

Vestido a rigor – num palco dominado pelo preto das vestimentas dos seus compinchas, a sua camisa azul clara e o seu chapéu esverdeado tornavam-no um alvo de atenção óbvio – Manu Chao repescou, em modo best-of, os grandes – e que grandes! – hits da sua carreira, entoados num portunhol exemplar por toda a plateia, sem exceção. Ouviram-se Welcome to Tijuana (praticamente com honras de abertura), Por la Carretera (com direito a explosão rock n’ roll no final), Bongo Bong (em versão softzinha, quase passado despercebida), Clandestino (celebrada com muita cerveja e “marijuana ilegal”), La Vida Tombola (tema integrante do documentário “Maradona”, do sérvio Emir Kusturika), Tà di Bobeira (com direito a bis, a muito moche, e a algumas garrafas de água voadoras), Me Gustas Tu (que fez as delícias de todos os festivaleiros e do pó, que nunca tinha arriscado, no Marés Vivas, voos tão altos), entre muitas outras, disparadas com mestria e garra, quase ininterruptamente, entre parcas palavras e entusiastas saudações em espanhol e português com sotaque brasileiro – viva os poliglotas!

Depois de tão avassaladora exibição, e já com um imparável concerto dos Xutos & Pontapés (onde não faltaram, claro está, os eternos À Minha Maneira, Não Sou o Único, Homem do Leme, Maria, Chuva Dissolvente, Circo de Feras, Contentores e, para fechar em beleza, como sempre, Casinha) e uma, ainda que mais tranquila, performance dos brasileiros Natiruts (que saciaram a impaciência dos mais velhos e coloriram o universo dos mais tenros e enamorados com os êxitos reggaedo costume – Presente do Beija Flor, Reggae Power, Liberdade para Dentro da Cabeça e alguns exemplares do seu mais recente trabalho, “Raçaman”) a pesar no lombo, foram poucos os que permaneceram no recinto, para dançar ao ritmo das encruzilhadas jazz, bossa, samba, reggae, ska, funk, drum&bass e afrobeat trazidas a horas tardiaspor João Dinis e Nuno Carneiros, DJs de serviço. Até porque a festa continua hoje no Cabedelo, ao som de Moby, Skunk Anansie e Expensive Soul, e há que recuperar energias. Assim sendo, até logo.

Texto: Sara Novais c/ José Aguiar

Fotografias: Cláudia Moura e Ana Oliveira(EM ACTUALIZAÇÃO)

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