Calor humano não faltou na noite de ontem. Não só na forma como Morrissey foi recebido pelo público português, sob uma tremenda ovação, mas também na temperatura geral da sala, que, em pleno mês de outubro, depois de um verão que insistiu em pregar-nos as mais impiedosas rasteiras, em muito se assemelhou a uma sauna. Que o diga o anfitrião, que, durante o concerto, fez lembrar uma destilaria ambulante.

O espetáculo de Morrissey começou à hora marcada com uma sequência de vídeos que misturaram canções de artistas que serviram de inspiração ao músico, quer na sua caminhada a solo, quer nos The Smiths (Ramones, Charles Aznavour, New York Dolls e Chris Andrews foram algunas das escolhas), imagens de manifestações e alguns depoimentos, mergulhados na habitual controvérsia a que já nos habituou - não faltou, aqui e ali, um ataque ou outro aos líderes de estado britânicos, com principal foco em Margareth Thatcher, primeira ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990 e um antigo ódio de estimação (recordam-se de "Margaret on The Guillotine", do álbum "Viva Hate"?).

Finda a projeção vídeo, hora de receber o homem da noite. "Wayward Sisters", de Klaus Nomi, tocou alto e serviu de tapete vermelho à entrada de Morrissey e da sua banda. Sem demora, o músico atirou-se a uma agitada "The Queen is Dead", canção do álbum homónimo dos The Smiths, e, logo de seguida, visitou "Vauxhall and I", com "Speedway". Ficámos com a sensação de que Morrissey agradeceu as primeiras músicas em espanhol (com um tímido "gracias"), no entanto, o lugar escolhido pela organização para a imprensa - um camarote na lateral do palco - não facilitou a inteligibilidade daquilo que Morrissey proferiu ao microfone. Pedimos, desde já, desculpas por algum dado que não corresponda à realidade.

Vestido de branco, com o ar crooner que tão bem o caracteriza, e o habitual penteado, que, mais do que uma imagem de marca, já se tornou uma assinatura, Morrissey foi polvilhando o concerto com diferentes episódios da sua discografia. "Certain People I Know" viajou de forma solitária a "Your Arsenal"; "First of The Gang to Die", a última de todas, já no encore, deu um pulo a "You Are The Quarry"; "I'm Throwing My Arms Around Paris" cumprimentou pela primeira vez "Years of Refusal"; seguir-se-ia "One Day Goodbye Will Be Farewell", a servir de despedida do palco antes do encore.

Apesar das escolhas de Morrissey terem sido algo heterogéneas (faltou, ainda assim, menções a "Viva Hate", um dos mais aclamados álbuns da sua carreira, nomeadamente com temas como "Everyday is Like Sunday" e "Suedehead"), o concerto teve como epicentro, como seria de esperar, o recentemente editado "World Peace Is None of Your Business", do qual foi possível ouvir a faixa-título, recebida de forma muito positiva pelo público, "Neal Cassady Drops Dead", "Istanbul", "Earth Is The Loneliest Place" e uma muito celebrada "Kiss Me a Lot", citando apenas alguns exemplos.

Morrissey é conhecido por ser o rei da controvérsia - um título que partilha com a dupla de irmãos Gallagher. Não faltam ao artista histórias e declarações em entrevistas que o coloquem no pódio dos músicos que mais barbaridades dizem. A revista "Rolling Stone" deu-se ao trabalho de compilar algumas delas, para os mais curiosos. Felizmente - ou infelizmente, dependendo do ponto de vista -, o concerto de ontem não foi pautado por nenhuma dessas saídas menos brilhantes do artista, salvo um momento, antes de interpretar "Meat is Murder", em que pediu ao público para comprar "spray branco" e vandalizar os cartazes de publicidade que se encontram espalhados pela nossa "belíssima cidade", com especial atenção para os do MacDonald's. Foi, aliás, o único período em que o músico britânico parou para respirar e trocar umas palavras com o público.

Ouvir canções dos The Smiths em concertos de Morrissey é sempre uma incógnita. É difícil prever ao certo quantas e quais músicas do coletivo é que vai interpretar. Uma coisa é certa: quando o faz, a euforia é garantida, como serviu de exemplo a entrada explosiva com "The Queen is Dead", o coro em uníssono em "Hand in Glove", o excelente momento rock de "Meat is Murder" e a muito festejada "Asleep".

Em jeito de balanço final, não se pode dizer que o concerto de Morrissey tenha sido mau, até porque não faltam exemplos que contradigam tal ideia. Mas também não foi genial, de encher o olho, de guardar para o futuro como uma relíquia inesquecível das suas passagens por Portugal. Satisfez os presentes, mas não tocou na alma. Uma coisa teve de positivo: viveu muito de música (a voz de Morrissey continua a ser precisa no exercício ao vivo e a banda que o acompanha continua extremamente competente) e pouco de conversa fiada. E é isso que se quer.

Texto: Manuel Rodrigues

Fotografias: Diogo Oliveira

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