Há quem diga que o mais difícil de conseguir num concerto é manter a plateia arrebatada do início ao fim. Pois bem, com Pablo foi assim. Mal entrou em palco, não foi possível conter os gritos femininos histéricos, as palmas fervorosas e o nome do cantor entoado de pulmões cheios como um hino. Enquanto o palco ainda estava escuro e os imensos olhares o fitavam, o ambiente tornava-se num céu cintilante de flashes. “Boa noite, Porto”, foram as primeiras palavras que proferiu e que suscitaram, novamente, gritos e palmas incessantes. Os seus sons quentes impeliram a plateia à dança desde a primeira música. Entre corpos acelerados, encontrávamos também muito romantismo em casais que trocavam carícias e se abraçavam, balançando.

Foram interpretadas Me Iré, No Te Olvidare, trespassando sempre uma grande cumplicidade do cantor com a banda. Também as guitarras pareciam cantar e as luzes, quentes e dinâmicas, dançar. O público, mesmo não conhecendo tão bem algumas canções, insistia em acompanhar Pablo entre braços agitados, formando um mar de ondas nas bancadas. Foi então que o cantor agradeceu, emocionado, o carinho, amor e entrega desmedidos da plateia, agradecendo, em particular, àqueles que vieram de outras cidades do país ou de Espanha, e aconselhando-os a permanecer um pouco mais pela cidade invicta, pois acredita que nela há muito a ver e viver. Pablo assegurou ainda a sua vontade de continuar a visitar terras lusitanas.

Seguiram-se Yo No Lo Sabia e Caramelo e, de repente, guitarra e voz irromperam num desafio que fez o público estremecer. Foram várias as vezes que o cantor ecoou “Manos arriba!”, não havendo uma única vez em que o Coliseu inteiro não aderisse de imediato. Rapidamente brotou Donde Esta El Amor que, logo nas primeiras notas, foi reconhecida pelos fãs, que de imediato jorraram de emoção – “No hace falta que me quites la mirada/ Para que entienda que ya no queda nada./ Aquella luna que antes nos bailaba/ Se há cansado y ahora nos da la esplada.”. O próprio Pablo terminou a canção de olhos fechados, moldando um coração com as mãos.

Apresentou a próxima música como retratando o sentimento de estarmos em casa, de pertença àqueles que nos conhecem e esperam – Quién – interpretando-a com a emoção à flor da voz. Seguiram-se Tanto, Seré e El Beso. Esta última foi dedicada aos que já se apaixonaram um dia, com o cantor a afirmar que prefere ser louco do que ser alguém que não sabe amar ninguém.

Enfim, as palavras tão aguardadas da noite - “se alguna vez” - arrepiaram o Coliseu, que quase cedeu ao enlouquecer do público. Sem exceções, todas as vozes, até as mais tímidas, se fizeram ouvir. Carminho entrou em palco e quase não foi possível ouvir as primeiras palavras proferidas, pois tanto era o barulho ensurdecedor de palmas, bater de pés e gritos de rejúbilo. Dezenas de telemóveis e câmaras fotográficas eram ansiosamente colocadas no alto, de forma a registarem aquele momento que, de tão intenso, pareceu tão breve. “É muito emocionante estar aqui e ver como nós recebemos o Pablo”, disse Carminho, emocionada. Foi então que se soltou o Fado e o vozeirão que não queria descansar. Alfama, primeiro à capela e depois acompanhada da bela guitarra portuguesa, domou o Coliseu, silenciando-o. As vozes que iam escapando, dos fãs mais fervorosos, eram abafadas pelos pedidos de silêncio dos restantes. Enquanto isto, Pablo estava atónito, sorridente e embevecido. Quando, de seguida, o cantor inseriu Te He Echado de Menos, a plateia ainda se encontrava abalada/estremecida pela carga emocional vivenciada.

Como já é usual nos seus concertos, Pablo interpretou La vie en Rose,de Edith Piaf, música pela qual tem um carinho especial desde a sua infância e que reinventou num ritmo mais quente, que melhor lhe encaixa. Seguiu-se Miedo e Vuelve Conmigo, que puseram toda a plateia de pé e a saltar. Neste momento, o cantor disse que o concerto estava quase no fim, o que suscitou desalento no público, que se viu rapidamente compensado, pois tal não era verdade e ainda muito se avizinhava. Pablo agradeceu a todos os que tornaram o concerto possível, pedindo um aplauso forte para todos eles e, “per supuesto”, ao público, que para ele é um família. Loco De Atar foi a música que precedeu o encore.

Antes que o Coliseu ruísse em delírio, Pablo regressou com Cuando Te Alejas, interpretada num ambiente mágico e acolhedor, por entre raios de luz que se cruzavam. De seguida, Pablo não hesitou em soltar um pouco do fadista que vive em si com Saudades do Brasil em Portugal, de Amália Rodrigues. Quando o público achava que não podia acabar melhor, o espetáculo prosseguiu com Pablo a dividir-se entre a voz, guitarra e piano. Solamente Tu avassalou o público e Desencuentro foi, novamente, uma música marcada pelo sentimento, em que Pablo deixou escapar um profundo suspiro. Éxtasis, certamente, perpetuou o êxtase que a banda exalava e o público absorvia. Pablo percorria o palco interagindo e saltando enquanto cantava En Los Brazos de Ella. Foi então que abraçou os músicos que o acompanham e juntos agradeceram ao público – “Hasta siempre!”. Hasta siempre, Pablo!

Texto: Sara Ralha

Fotografia: Isabel Cortez

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