Noite de celebração ontem, no Campo Pequeno, com os Resistência ao vivo. O supergrupo lusitano homenageou os vinte anos da sua estreia ao vivo, mas, acima de tudo, prestou homenagem à musica portuguesa, perante um Campo Pequeno que encheu até às galerias para ouvir uma das maiores bandas de culto do panorama nacional.

A compilação de depoimentos, que abriu a noite, não deixou margem para dúvidas: estávamos na presença de um dos marcos da música portuguesa, os Resistência. O vídeo, exibido nas telas laterais ao palco, mostrou os protagonistas da banda a abordarem assuntos como o início, a sua sonoridade, o impacto e a mensagem que transmitiram há duas décadas atrás. Finalizada a projeção, uma voz off interviu e chamou ao palco, então, o coletivo que todos ansiavam ver, ou rever. Talvez alguns dos presentes aguardassem por este reencontro há quase duas décadas.

Já no palco, a banda relembrou clássicos que ainda hoje fazem sucesso perante os ouvidos das novas gerações, como viria a referir Olavo Bilac já a meio do concerto. A verdade é que temas como “Nasce Selvagem”, dos Delfins; “Amanhã é Sempre Longe Demais”, dos Rádio Macau; “Circo de Feras”, dos Xutos e Pontapés; “Fado”, dos Heróis do Mar e “Perigo”, dos Trovante são imortais e, em alguns casos, parecem ganhar outra vivacidade com o passar dos anos. Tais obras conquistam outra essência ao serem interpretadas por esta orquestra de guitarras, que transforma grandes êxitos nacionais em pérolas, arranhadas em cordas agradáveis e contagiantes.

Tal contagio foi evidente em canções como “Fim”, dos Trovante; “No Meu Quarto” e “Só No Mar”, dos Delfins, com esta última a incluir uma verdadeira aula de ritmo, já perto no final da música, a cargo de Alexandre Frazão (bateria), Fernando Júdice (Baixo) e José Salgueiro (percussão) - uma autêntica explosão de polirritmia só ao alcance dos melhores, a ser correspondida euforicamente pelo público. Mas, não são apenas canções de outras bandas os grandes sucessos dos Resistência. Temas originais da banda também fizeram parte da celebração de ontem à noite. Exemplos disso foram “Timor” e “Liberdade”, da autoria de Pedro Ayres de Magalhães.

A noite era de celebraçãoda musica portuguesa e, como tal, foram relembradas as participações dos Resistência nas coletâneas que prestaram homenagem a artistas como Zeca Afonso e António Variações, bem como a interpretação do tema “A Noite”, dos Sitiados, na compilação “100 Grandes Vedetas da Música Portuguesa”. “O Zeca Afonso ajudou-nos a perceber como nos havíamos de nos posicionar perante a música portuguesa”, confessou Tim antes de interpretar o tema “Que Amor Não Me Engana” do músico aveirense. Seguiram-se, ainda de Zeca Afonso, as canções “Chamaram-me Cigano” e “Traz Outro Amigo Também”, com esta última a merecer um “viva o Zeca Afonso” por parte de Miguel Ângelo, no final. António Variações teve a sua devida menção honrosa em “Voz-Amália-De-Nós”, resultando no momento duplo de preito da noite. “A Noite” foi a responsável pelo fenómeno do concerto. Os milhares de gargantas afinadas foram bastante superiores às dezenas de milhares de Watts que o sistema de som distribuía. Olavo Bilac e Miguel Ângelo bem que podiam esforçar as suas vozes ao máximo, que a unanimidade do canto, por parte do público, foi superior.

A predominância de canções de Delfins e Xutos e Pontapés foi óbvia. Nesta altura do concerto, já grande parte das bancadas cantava de pé as músicas das duas bandas. “Aquele Inverno” e “Um Lugar ao Sol” marcaram alguns dos últimos momentos de júbilo da noite, mas foi “Não Sou o Único” que colocou o público, que ainda restava sentado, de pé e a acompanhar o coletivo, nesta que foi a última canção do alinhamento. “Não Sou o Único” contou ainda com a participação de Fredo Mergner, um dos elementos da formação inicial dos Resistência, sendo o primeiro e único convidado da noite.

Mas a história não ficou por aqui. A ovação ensurdecedora, acompanhada por cânticos desportivos, marcou o regresso deste onze da música ao palco. “Continuamos à procura do amanhã”, foi o lema proferido pelo grupo que introduziu “Prisão em Si”, da autoria dos Xutos e Pontapés. Contracenando com uma ou outra bandeira nacional, erguida na audiência durante o concerto, Olavo Bilac fez-se acompanhar de uma bandeira gigantesca de Portugal, ilustrando da melhor forma a homenagem prestada à música lusitana. Finalizado o tema, a banda despediu-se novamente do público, no entanto, rapidamente regressou a cena, pois a audiência foi incansável na ovação ao coletivo e não desistiu de ouvir mais uma música.

Num último fôlego, os Resistência repetiram “Nasce Selvagem”, só que, desta vez, Miguel Ângelo pediu para serem acesas o máximo de luzes no Campo Pequeno, de forma a conseguir vislumbrar a energia que o público ainda emanava, quase duas horas e meia depois do início do concerto. Foi com este ambiente avassalador, sob um dos incontornáveis hinos de Delfins, que os Resistência se juntaram na boca de palco para agradecerem e se despedirem dos milhares de pessoas que afluíram à praça de touros lisboeta.

Ontem, escreveu-se, assim, mais uma página na história da música portuguesa. Os Resistência continuam a sua celebração em Guimarães dia 29 de dezembro, no Pavilhão Multiusos.

Manuel Rodrigues