A Academia Sueca atribui este ano dois Prémios Nobel da Literatura (relativos a 2018 e 2019), depois de, no ano passado, este galardão ter sido suspenso devido a um escândalo de abusos sexuais e crimes financeiros, que afetou a instituição responsável pela atribuição do prémio.

Embora o Prémio Nobel da Literatura sempre tenha sido difícil de antecipar, as casas de apostas internacionais todos os anos apresentam uma lista com os favoritos, como é o caso do conceituado site britânico Nicer Odds, que tem à cabeça a poeta e ensaísta canadiana Anne Carson, enquanto a última posição é ocupada por George R. R. Martin.

São várias as mulheres apontadas como possíveis candidatas pela disputa do prémio, como a francesa Maryse Condé ou a polaca Olga Tokarczuk, que aparecem em segundo e terceiro lugar no ‘ranking’ da casa de apostas, mas também a romancista russa Lyudmila Ulitskaya e a autora de “A história de uma serva”, Margaret Atwood.

Estas possibilidades ganharam mais força, depois de o secretário da Academia Sueca, Anders Olsson, ter afirmado, na semana passada, que os critérios deste ano mudaram, noticiou o jornal The Guardian.

Dado que os dois últimos vencedores - Kazuo Ishiguro e Bob Dylan - escrevem em inglês e apenas 14 dos 114 premiados são mulheres, Anders Olsson reconheceu a necessidade do júri de "ampliar perspetivas".

"Tínhamos uma perspetiva mais eurocêntrica da literatura e agora estamos a olhar para todo o mundo. Anteriormente, era muito mais voltado para homens. Agora, temos tantas escritoras que são realmente fantásticas, pelo que esperamos que o prémio e todo o processo do prémio tenham sido intensificados e tenham um âmbito muito mais alargado”, disse.

Outros nomes femininos vistos como possíveis candidatos ao Nobel da Literatura são a chinesa Can Xue, que surge em quarto lugar na casa de apostas, e a norte-americana Marilynne Robinson.

Entre os favoritos surgem nomes repetentes de autores que ano após ano são considerados possíveis vencedores, como o japonês Haruki Murakami, o checo Milan Kundera e o queniano Ngugi wa Thiong’o.

O romancista húngaro László Krasznahorkai, o albanês Ismail Kadaré e o espanhol Javier Marias são outros nomes fortes na lista da casa de apostas.

Este ano, as probabilidades de vencer abrem-se para todos os autores, já que serão atribuídos de uma só vez dois prémios.

O Nobel de Literatura foi adiado no ano passado, após um escândalo de abuso sexual e má conduta financeira, que levou a uma série de demissões na Academia Sueca, que atribui anualmente o prémio.

Jean-Claude Arnault, cuja esposa Katarina Frostenson era membro da Academia até desistir em janeiro por quebra de sigilo, foi condenado por violação em outubro de 2018 e preso por dois anos.

Com os prémios referentes a 2018 e 2019 marcados para serem divulgados na quinta-feira, a Academia espera que o regresso do Nobel seja bem recebido pela comunidade literária global.

O Nobel da Literatura, atualmente no valor de nove milhões de coroas suecas (863.000 euros), é atribuído ao escritor que, nas palavras do testamento de Alfred Nobel, produza “no campo da literatura o trabalho mais notável numa direção ideal".

Academia tenta recuperar imagem e concede duplo Nobel da Literatura

A Academia Sueca anuncia na quinta-feira os vencedores do Nobel da Literatura de 2018 e 2019, depois de o prémio ter sido suspenso, devido a um escândalo que abalou a reputação da instituição e levou a várias demissões.

Em maio do ano passado, a Academia Sueca, responsável pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura, fez saber que não iria atribuir o galardão nesse ano, por causa dos alegados abusos sexuais em que se encontravam envolvidos membros da instituição, responsáveis pela seleção do vencedor.

Na altura foi dito que o prémio respeitante a 2018 iria ser atribuído em 2019, embora tenha chegado a ser considerada a possibilidade de o prémio só ser entregue em 2020, caso os problemas não fossem sanados antes da data da atribuição.

A polémica remonta a novembro de 2017, quando, entre a campanha de denúncias de abusos sexuais #MeToo, 18 mulheres revelaram, de forma anónima, no jornal diário Dagens Nyheter, abusos cometidos pelo dramaturgo Jean-Claude Arnault - ligado à academia através do seu clube literário e marido de um dos seus membros, Katarina Frostenson -, em instalações pertencentes à Academia Sueca.

Quando o escândalo surgiu, a Academia Sueca cortou a relação privilegiada que mantinha com o dramaturgo e pediu uma investigação externa, enquanto várias mulheres interpunham processos judiciais e o ministério público abria um inquérito, entre duras críticas do mundo cultural à instituição.

Várias divergências internas quanto às medidas a adotar surgiram então, desencadeando demissões, acusações e saídas de vários membros da academia, entre os quais a secretária permanente em exercício, Sara Danius.

Entretanto, os membros que continuavam a ocupar as suas cadeiras na academia decidiram divulgar os resultados da auditoria e entregá-los às autoridades.

O relatório rejeitava que Arnault tivesse influenciado decisões sobre prémios e subsídios, embora o apoio económico que recebeu violasse as regras de imparcialidade, pelo facto de a sua mulher ser coproprietária da empresa que geria o clube literário, e confirmava que a confidencialidade sobre o vencedor do Nobel fora diversas vezes violada.

Em junho, Jean-Claude Arnault foi acusado de dupla violação de uma mulher, em 2011.

Por esta altura, a Academia já tinha menos oito elementos (embora dois já tivessem saído antes por outros motivos), de um total de 18 que compunham aquela instituição cultural, e a decisão de não atribuir o Prémio Nobel relativo a 2018 já tinha sido tomada e anunciada.

No mês seguinte, como forma de protesto ao cancelamento do prémio, um grupo de mais de cem figuras culturais suecas, que se intitulou de Nova Academia, uniu-se para criar a sua versão do Prémio Nobel da Literatura.

O prémio alternativo distinguiu a escritora francesa Maryse Condé, em outubro, no mesmo mês em que o Tribunal de Estocolmo condenou Jean-Claude Arnault a dois anos de prisão por violação.

Entretanto, a Academia Sueca começou a eleger novos elementos, conseguindo completar em novembro todos os lugares deixados vazios na sequência do escândalo.

Por sua vez, Jean-Claude Arnault, que recorreu da decisão judicial, viu a sua pena ser confirmada e agravada, em dezembro, pelo Tribunal de Recurso de Estocolmo, com uma condenação a dois anos e meio de prisão pelos dois casos de violação.

No meio de todas estas convulsões, Katarina Frostenson, mulher de Jean-Claude Arnault, manteve-se na academia até janeiro deste ano, altura em que abandonou o lugar, após chegar a um acordo com a Academia, que aceitou atribuir-lhe um subsídio mensal em troca da sua renúncia voluntária.

Um relatório encomendado pela instituição havia concluído que a expulsão de Katarina Frostenson se justificava por ter violado os estatutos, ao informar o marido, o artista francês Jean-Claude Arnault, sobre os vencedores do Nobel e diversas nomeações.

Em fevereiro, essa última cadeira vazia foi ocupada e, em março, a Fundação Nobel anunciou que iria conceder o Prémio Nobel de Literatura de 2018 ao mesmo tempo que o de 2019, cumprindo o calendário de atribuição destes prestigiados prémios suecos.

Os responsáveis estão agora confiantes de que o prémio poderá ajudar a recuperar a imagem da instituição, com o secretário da Academia, Anders Olsson, a apostar numa escolha que evite a perspetiva “eurocêntrica” e “orientada para homens”, que dominou as escolhas do júri no passado.

Os vencedores vão ser conhecidos na próxima quinta-feira, dia 10 de outubro.

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