Ainda assim, estão cientes de que algumas livrarias e pequenos editores não irão resistir a esta crise, que está a devastar um setor que só recentemente “começava, finalmente, a dar alguns sinais de retoma após uma longa década de retração”, lamentou o responsável de comunicação da Porto Editora, Paulo Rebelo Gonçalves.

“É muito preocupante, especialmente ao nível da rede dos pequenos livreiros. Enfim, com o fecho da esmagadora maioria das livrarias físicas, o canal que resta aos editores é o online”, disse à Lusa aquele responsável.

Ainda assim, o trabalho editorial não vai parar, apesar de os novos lançamentos terem sido adiados, para permitir ir abastecendo o mercado e responder às vendas online.

A Bertrand Editora “está a sofrer um enorme impacto nas suas vendas”, mas ainda não é possível estimar “a real dimensão da perda de volume de negócios”, disse à Lusa o diretor executivo do Grupo Bertrand Círculo, Paulo Oliveira.

Detentora de chancelas como Bertrand, Quetzal, Temas e Debates ou Contraponto, esta editora não vende diretamente ao público, pelo que apostará no canal online em sites como o da Livraria Bertrand e o da Wook.

“Esta crise severa está igualmente a afetar” o Círculo de Leitores, editora largamente dependente do serviço de assistência personalizada aos clientes, no domicílio ou local de trabalho, “que será fortemente afetado pelas medidas tomadas pelas autoridades”, lamentou Paulo Oliveira.

Perante a “enorme redução” de vendas, tanto a Bertrand Editora como o Círculo de Leitores reequacionaram os seus planos editoriais e optaram por suspender todos próximos lançamentos, afirmou o diretor executivo.

Já a estratégia de sobrevivência da Gradiva passa por “praticar durante este período descontos de 40%”, disse o editor, Guilherme Valente, que espera conseguir garantir algumas vendas através do site que a editora recentemente instalou.

A Gradiva continua a funcionar – em teletrabalho - para “faturar quaisquer pedidos que cheguem”, e promete lançar logo que possível os livros programados para 2020 que já estão prontos e pagos.

De resto, toda a produção de novidades parou, para guardar as reservas financeiras.

“Se a epidemia abrandar em seis meses ou durar um ano, esperamos poder garantir o vencimento a todos, vital para as famílias que dependem da pequena empresa que somos. Temos a vantagem de a Gradiva não ter, nem nunca ter tido, passivo”, sublinhou.

Também a equipa da Guerra e Paz está “em teletrabalho e a lutar pela manutenção da editora”, disse à Lusa o editor, Manuel Fonseca, ciente de que “não há milagres” e que o setor do livro “agora vai passar por um perigoso cataclismo”, com os pequenos editores a poderem ver “a sua sobrevivência ameaçada”.

As estratégias alternativas de venda, como sejam as vendas online, “apenas podem mitigar essa quebra”, afirmou, acrescentando que a editora vai parar a produção de novidades e adiar lançamentos.

O grupo editorial LeYa não foge à regra e optou por suspender também as novidades, mas vai continuar a trabalhar no seu plano editorial de 2020, aguardando pela normalização do mercado.

Tal como as outras editoras, aposta nas vendas online, e lançou uma iniciativa que consiste na partilha de textos, leituras ou sugestões de livros, feita pelos escritores nas redes sociais e identificada como #leyaemcasa.

O grupo Penguin Random House, que detém as chancelas Alfaguara e Companhia das Letras, entre outras, também adiou a publicação das novidades agendadas, apostando nos canais online, “que são desde há muito tempo uma prioridade” na sua estratégia comercial.

Para já, mantém “intocada” a estratégia de preços e espera poder retomar a publicação no início de maio.

Em pior situação está o grupo 2020 - detentor de chancelas como a Elsinore e Cavalo de Ferro -, porque não tem canais de venda online, mas não irá suspender a atividade, apenas reduzir títulos a colocar no mercado e incentivar a economia “através de campanhas com descontos apelativos”.

As vendas online são também a aposta da Relógio d’Água, embora o editor, Francisco Vale, esteja consciente de que estas “estarão longe de compensar a perda registada na rede livreira tradicional”.

Como se passa com as outras editoras, a Relógio d’Água está a adiar lançamentos de várias obras e a redefinir a sua programação editorial, esperando poder relançar a atividade logo que possível.

“A paisagem editorial depois desta batalha terá certamente alterações significativas. É provável que algumas livrarias, que vão registar importantes perdas, entrem em crise. É também possível que outras privilegiem, ainda mais do que o habitual, os ‘bestsellers’ dos principais grupos editoriais, em detrimento da literatura, para tentarem compensar mais rapidamente as suas perdas”, estimou o editor.

A Cotovia vai fazer algumas promoções na livraria online, “que está a funcionar perfeitamente, e abrir o email geral a encomendas para quem o queira fazer, disse à Lusa Fernanda Mira Barros, editora da Livros Cotovia.

“De resto, continuamos a trabalhar, cientes de que o que se instalou, e perdurará muito tempo, pode ser fatal para muitas pequenas empresas”, acrescentou.

A edição dos títulos previstos pela Ponto de Fuga está suspensa e todos os esforços se concentram em preparar novos títulos para relançar quando possível e contrariar o receio dos impactos que esta crise trará ao setor livreiro, “sobretudo aos pequenos editores, que há muito já se debatem com grandes dificuldades”.

Fátima Fonseca diz que esta pequena editora ainda não sabe como responder à situação, e afasta a solução do online, considerando “pouco realista que as vendas online possam representar parte significativa do volume de vendas total indispensável” à sua “sobrevivência”.

Também a E-primatur, editora baseada no crowdfunding, decidiu suspender a produção da maior parte dos livros anunciados, mas garante a todos os que apoiaram os seus projetos que estes serão publicados logo que possível, e ressalva que os livros já editados podem ser comprados online com 10% de desconto.

A Antígona lançou uma “campanha de pechinchas” até 35% no seu site, até ao dia 5 de abril.

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