O documentário de
José Manuel Lopes, que pretende homenagear o homem que «deu a noite à cidade», começou a ser feito em 2001, mas passou todo este tempo em ‘stand by’, esperando financiamento aqui e ali, conta o realizador.

«Antes do Zé da Guiné as noites eram escuras, frias e metiam medo», recorda a sinopse do filme.

Estávamos em finais dos anos 70. Nascido na Guiné-Bissau, Zé passa pela guerrilha do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e, na altura do 25 de Abril, desembarca em Lisboa «atrás de um sonho».

«Acaba por liderar a mudança de costumes, da noite, de Lisboa», resume o realizador. Zé introduz-se no meio estudantil através de uns primos e participa nos primeiros movimentos de okupas.

Zé da Guiné acaba por se transformar «num perfeito lisboeta» – «é mais lisboeta do que eu, ele conhece tudo, as ruas, as pessoas, os locais», diz José Manuel Lopes, acrescentando que ainda hoje, mesmo afectado pela esclerose lateral amiotrófica, doença neurodegenerativa progressiva e fatal, continua a dar indicações sobre onde ir.

José Manuel Lopes conheceu Zé da Guiné «nas noites» – «era uma figura emblemática em termos de presença física e extremamente sociável». Começou por ter com ele uma «relação de afastamento», até porque «o Zé da Guiné metia algum respeito». Só posteriormente se tornaram amigos e agora visita-o «semanalmente».

A ideia do filme nasce em 2001, quando Zé da Guiné já estava doente, mas na altura «recusava-se a aceitar isso».

José Manuel Lopes obteve um subsídio estatal para pesquisa e desenvolvimento, mas aproveitou-o para filmar «o dia a dia dele» e registar os seus depoimentos, «ainda ele se movimentava à vontade».

Actualmente «é penoso» falar com ele. «Há umas filmagens» de «dois ou três minutos» sobre o seu estado de saúde actual, «mas não se consegue entender, ele usa um aparelho para respirar constantemente, um ventilador», descreve o realizador.

«É a esclerose lateral amiotrófica no seu esplendor», só que «a diferença é que enquanto o Zeca Afonso em quatro anos desapareceu, o Zé já tem isto há dez anos e continua a resistir».

O filme já tem exibição marcada para o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 12 de Agosto, e está prevista para «breve» outra sessão no Cinema São Jorge, para recolha de fundos, que será organizada pela Câmara Municipal de Lisboa. Em 2010, um grupo de amigos criou uma conta-solidariedade para ajudar Zé da Guiné.

O documentário vai estrear-se na RTP, mas a data ainda está por definir pela «nova programação», e depois a ideia é levá-lo aos países africanos de língua portuguesa, nomeadamente à Guiné-Bissau, e ao Brasil.

O realizador pretende ainda levar o filme «a certos sítios da cidade, para ser mostrado aos jovens, principalmente em bairros problemáticos, porque o Zé também tem esse pendor, serve de exemplo de como é que se constrói qualquer coisa».

«O Zé construiu qualquer coisa, através dele próprio, sem apoios, sem nada, ele inventou, reinventou, transformou, criou. E muitas vezes a miudagem não tem saídas e o filme pode, em certa medida, servir de exemplo de como é que se podem encontrar saídas», acredita José Manuel Lopes.

Na exibição desta sexta-feira, às 21:30, Zé da Guiné estará presente, como «não podia deixar de ser».


@Lusa

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